sexta-feira, 22 de Janeiro de 2010

Opinião - Afinal o tamanho é importante?


Os dois melhores livros que li até hoje (D. Quixote e Os Irmãos Karamazov) são absolutamente monstruosos (mais de 1500 páginas nas edições que usei). Outros livros considerados obras-primas da literatura mundial são do mesmo quilate: Guerra e Paz, Os Miseráveis, Ana Karenina, Doutor Jivago, etc. Isto leva-me a pensar no seguinte: o que distingue, de facto, uma obra-prima? Se é a análise aprofundada do comportamento humano, então, não tenhamos dúvidas, o homem é um ser tão complexo que não se consegue ir às profundezas da alma sem se fazer um “tratado” capaz de funcionar como arma de arremesso se nos assaltarem a casa.
Por outro lado, há livros fantásticos que se lêem numa única insónia: Madame Bovary, A Metamorfose, Inventar a Solidão, O Estrangeiro, De Profundis, A Morte de Ivan Ilich, ou o recente e maravilhoso Firmin.
Mas… poderão estas últimas ser consideradas obras-primas? Não serão apenas leituras e interpretações parcelares da vida e alma humanas?
Esta reflexão leva-nos a uma outra questão: afinal, o que queremos dos grandes livros? Que nos analisem profundamente ou que nos ofereçam belas histórias? Que nos ocupem longos serões e nos obriguem a memorizar centenas de nomes ou então que nos distraiam apenas?
Será o nosso tempo tão pouco valioso que nos possibilite utilizar centenas de horas para ler três ou quatro obras?
Evidentemente tenho as minhas respostas a estas questões. No entanto, gostava que os meus amigos pensassem no assunto…

16 comentários:

Poeta do Penedo disse...

Caro Manuel Cardoso
Na minha opinião a qualidade de um livro não depende do número de páginas que o compõem. Estamos no campo da subjectividade. Poderão existir autores que para descreverem uma determinada cena, num determinado cenário, dêem muita importância ao cenário, descrevendo-o em pormenor, o que, para o efeito, terão de escrever um determinado número de palavras, palavras essas que poderiam não ser escritas por um outro autor, que embora esteja a ver o cenário no momento em que cria, considera-o irrelevante para a cena em si.
Poderão existir autores que pouca importância atribuam, por exemplo às expressões faciais das personagens, embora ele as tenha visualizado, considerando que o diálogo é suficiente para que o leitor perceba a mensagem que ele quer transmitir, ao passo que outros autores considerarão que a descrição das expressões faciais das personagens são fundamentais, porque dão muito mais realismo aos diálogos. Isso custa palavras.
E depois existem as temáticas. Suponho que um livro que se debruce sobre um determinado período histórico terá muito mais propensão a ser grande, do que aquele que aborda questões do foro psicológico.
Pessoalmente prefiro livros que me façam reflectir sobre a condição humana, sempre, mas que tenham também a capacidade de, além de me fazerem pensar, me façam sonhar.
Já li livros pequenos de que não gostei, e já tentei ler livros grandes cuja leitura fui incapaz de prosseguir, após um capítulo lido.
Mas, existem livros grandes e pequenos que já li mais do que uma vez, e que voltarei a ler.
Tudo é determinado pela mente que fervilha de vida e acção.
Com amizade

Teresa disse...

Olá Manuel
Que boa pergunta! Nunca pensei nisso assim, até porque sou um bocado caótica nas leituras que faço; numa altura apetece-me ler um livro que nunca leria noutra altura, pelas mais variadas razões.
Mas acho que não, nos livros, como no resto dos produtos que nos rodeiam, o tamanho não importa muito. Como sabes, houve épocas em que o estilo literário pedia extensão, e pormenorizadas descrições (estou a lembrar-me de Eça, que eu adoro). Hoje, as mesmas temáticas poderiam ser tratadas de um modo muito mais contido. Ou não. Continua a depender do autor.
Já li livros pequenos e extraordinários. Tu lembraste alguns. Alguém se lembraria de não considerar "Metamorfose" uma obra-prima, onde se reflecte sobre a alma humana?
Enquanto escrevia, lembrei-me de "Crónica de uma morte anunciada" de Gabriel Garcia Marquez, para mim um dos seus melhores livros e, talvez, o mais pequenino.
Não, o tamanho não importa. Só na alma.
Bjs

Jojo disse...

Uma excelente questão!
Os livros com muitas páginas nunca me intimidaram...se forem bem escritos, cativantes, que tenham personagens complexas e que despertem sentimentos como o ódio e o amor.
Mas há livros pequenos como o Metamorfose que são fabulosos a descortinar a alma humana.
Eu não importo com o número de páginas desde que me divirta e aprenda com eles.

Patrícia disse...

Pode ser um livro extremamente pequeno e banhado de uma escrita envolvente e de personagens marcantes, e pode ser um livro gigante com os mesmos aspectos. Tudo depende se é um GRANDE ESCRITOR ou um pequeno escritor. E talvez aí, o tamanho importe.

Obrigada pelo comentário=)
Patrícia

Fatima disse...

Manuel,
nunca compreendi a leitura assim. Leio sempre, leio muito.
Gosto de livros tão diferentes que acredito que sou seduzida pela forma como o autor conta ou constroi sua história.
o tamanho nunca teve importância pra mim.

Manuel Cardoso disse...

Adorei as vossas palavras!
Só umas notazinhas a cada um de vós, sem querer dar respostas, porque neste tema tudo o que escrevesse seria insuficiente e inacabado.

Olá Poeta, é sempre um prazer receber-te neste cantinho.
Há de facto escritores mais "cinematográficos", que precisam de esmiuçar todos os pormenores do real. Depois há os que se "espalham" (no bom sentido) na análise psicológica.São muitos os motivos que levam alguns esritores a escrever "tratados"...
Há uma frase tua que aprecio e subllinho: "prefiro livros que me façam reflectir sobre a condição humana". Sem dúvida!
Amizade retribuida :)

Olá Teresa
acho que o Garcia Marquez tem um livrinho ainda mais pequeno que esse: aquele que tem um nome muito feio :)
Adorei a tua última frase: "Não, o tamanho não importa. Só na alma."
Lindo!

Olá Jojo
dizes bem: livros que me divirtam e com os quais aprendamos algo. É isso!

Olá Patrícia
de facto a diferença está mais em quem escreve do que no quanto escreve.
Há livros que são grandes mas não são grandes livros :)

Olá Fátima,
é óbvio que eu também nunca entendi a leitura assim, estou só a fazer uma observação à posteriori, mas não posso legar que se o Ulisses ou Guerra e Paz ou ainda os Miseráveis fosses "fininhos" já os teria ler.
Até me apetecia lançar outra pergunta: será que o tamanho, não sendo importante, como todos concordamos, nos limita?

Cumprimentos a todos

Teresa disse...

Ok, já que lanças essa outra questão, deixa-me responder-te que sim, o tamanho limita. Por exemplo, se vou de viagem tento levar um livro relativamente fino, o ideal para ter sempre o que ler, sem muito peso. Já quando entro de férias, pego nos calhamaços que não tenho ânimo para enfrentar nas épocas de trabalho.
Felizmente, nas livrarias há muita escolha!
Bjs

Ju Haghverdian disse...

Huuum, muito boa pergunta!
É difícil de dizer até que se chegue ao final do livro... Há livros curtos que lemos e parece qu a história nunca acaba, não se vê a hora de terminar a leitura - como quando li "The catcher in the rye", do Salinger. Outros que são longos e longos mas que no final você deseja saber mais, deseja que a história nunca acabe, como quando li Ana Karenina - senti saudade dos personagens mesmo depois de vários dias após o término.

Depende da ligação do leitor com o enredo, do que a história vai representar naquele exato momento em que o livro é lido...
Não depende do quão longo ou curto, depende apenas do prazer que a leitura me proporciona.


PS: Sabe que nunca consegui terminar Os Irmãos Karamazov, parei lá pela página 350!

Abraços

Teresa Fidalgo disse...

Em resposta a esta pergunta apetece-me dizer o mesmo que do "herói" do livro "À espera no Centeio", de J.D. Salinger – “Um bom livro é aquele que faz nos sentir saudades das personagens depois de o acabarmos de ler.”
Independentemente do volume do livro, classificaremos como subjectivamente bom aquele que nos deu prazer, aquele que nos fez transbordar de emoções variadas.
Pessoalmente, aprecio pouco livros demasiado descritivos, que não nos deixem espaço para a imaginação. E por isso, (lá vem o sacrilégio!) não gosto de Eça (tirando A Cidade e as Serras, não gostei de mais nenhum que li). Mas eu não sou crítica literária, e ainda bem, porque assim leio o que me apetece.
No entanto, parece-me que um livro para poder ser considerado uma obra-prima, não basta ter a capacidade de “nos” dar prazer e de nos transmitir emoções. Já li alguns livros que me causaram sensações de prazer e estão longe de assim serem classificados.
Não haverá dúvidas relativamente a nenhuma das obras que referiu, e elas não foram, certamente, avaliadas pelos quilos de papel escrito…
A grandeza de um livro há-de ser antes medido pela grandeza do seu escritor, e pela sua capacidade de o tornar intemporal.
Um abraço

continuando assim... disse...

( o "continuando assim", já não continua assim... Hoje, Estilhaçamos Ampulhetas ... http://www.ampulhetasestilhacadas.blogspot.com )

bj
T.

Manuel Cardoso disse...

Pois é, Teresa; eu também estou à espera das férias para ler o Guerra e Paz :)

Ju, quanto ao "Irmãos Karamazov", o Dostoievski foi muito mauzinho e o que aconteceu contigo esteve quase para acontecer comigo. É que a primeira metade da obra é terrivelmente filosófica e a segunda é quase só narrativa. Assim, a maioria das pessoas desiste na primeira parte. Se leste essas páginas todas, aconselho-te a fazer mais um esforço porque a partir do meio, garanto-te, a obra adquire outro ritmo, como se fosse outro livro. No final tudo encaixa como se a narração viesse completar as reflexões feitas. E no final é que verificamos que sem aquela primeira parte a história perdia todo o sentido.

Teresa Fidalgo, intemporalidade, aí está a palavra chave!
Ah, uma provocaçãozinha, já que não gostas do Eça: eu tenho saudades do Conselheiro Acácio ;) (embora reconheça que hoje em dia há boas imitações)

Teresa Fidalgo disse...

Manuel,
Eu aceito com bom humor uma provocação :)

Paula disse...

O tamanho...
Não, de facto não interessa e acho que nisso todos concordamos. O que importa realmente é que a obra nos agrade, nos toque e nos diga algo.
Há livros enormes e que não nos dizem nada, como os há pequenos e que nos dizem muito. No entanto é uma questão subjectiva.
Quanto à alma humana, há os pequeninos que a refletem tão bem como "a metamorfose" ou a "Carta ao Pai" de Kafka ou os grandes como Ana Kareninna...
Um abraço

Manuel Cardoso disse...

Paula, trata-se, de facto, uma questão subjectiva. O que seria a arte se fosse objectiva? Consegues imaginar uma arte objectiva? Que horror!
Quanto à leitura da alma humana; relendo o que escrevi pode dar a entender que considero que um livro pequeno não pode ser uma obra-prima ou um clássico. Não queria insinuar tal coisa. A Metamorfose, Madame Bovary e o Estrangeiro, para mim, são clássicos. (A Carta ao Pai ainda não li). Então o que é que entendo por um Clássico ou uma obra-prima? Para mim é um livro com uma mensagem capaz de me fazer repensar algo de fundamental. Digamos que é um conceito subjectivo. Muito. Assumo-o. Nesse sentido, posso dizer que:
- Madame Bovary alterou a minha maneira de encarar as determinado tipo de relações humanas;
- a Metamorfose obrigou-me a repensar a distância (por vezes ínfima) entre o real e o absurdo e a repensar a importância real que damos à forma como os outros nos vêem.
- o Estrangeiro fez-me reflectir sobre a identidade e sua importância na vida;
- Inventar a Solidão alertou-me para a precaridade da vida;
- De Profundis sacudiu o meu espírito acerca da proximidade entre o amor e o ódio.
e por aí adiante.
E são livros pequenos!
Afinal, uma joaninha é uma construção mais complexa e mais bela do que qualquer arranha-céus.

M. disse...

Gostava de nutrir essa paixão pela leitura, não se pode ter tudo..... Um beijinho e parabéns. Maria

tonsdeazul disse...

Cada história tem a sua essência independentemente do tamanho do livro. Uma boa história está na capacidade que o escritor tem para a contar e o leitor para apreciar.

O ano passado apaixonei-me pelo "D. Quixote" e também me surpreendi pelo amoroso "Firmin". Tamanhos bem distintos, com histórias bem distintas, mas de prender o leitor até à última sí-la-ba!