segunda-feira, 16 de maio de 2016

Em Busca do Tempo Perdido, vol. I - No caminho de Swann - Marcel Proust


Comentário:
Este é o primeiro dos sete livros que compõem Em Busca do Tempo Perdido, uma das obras mais marcantes de toda a história da literatura mundial.
Antes de mais quero desenganar os potenciais leitores dizendo que, de facto, é uma leitura exigente. Difícil, mesmo. Esta dificuldade tem também a ver com os frequentes saltos temporais que exigem uma atenção especial por parte de quem lê. Para compreender corretamente o que Proust diz e quer dizer é necessário ler, por vezes reler e refletir. A linguagem em estilo de prosa poética aprofunda essa dificuldade.
Mas são as montanhas mais altas que fornecem as mais belas paisagens; ler este livro é um desafio que compensa pela beleza do texto mas também pela própria narrativa. Mas essa poesia também potencia o prazer de ler. Mesmo que lendo por ler, sem preocupações com a narrativa.
Já neste primeiro volume é nítida a influência de Bergson, o criador do intuicionismo; na verdade há uma espécie de primazia do pensamento; o homem é aquilo que pensa. A própria vida social (principal tema deste volume) é determinada pela forma como o sujeito apreende a personalidade dos seus pares: “A nossa personalidade social é uma criação do pensamento alheio”, diz Proust.
Uma espécie de ponto comum com um dos seus maiores ídolos, Baudelaire, Proust dá ênfase especial à crítica da sociedade. O formalismo, a atitude algo hipócrita das personagens, o seu caráter frívolo, são alguns dos aspetos apontados à sociedade parisiense do início do século XX. A própria educação do jovem narrador (alter-ego do autor) é baseada nesse formalismo aristocrático, com uma acentuada severidade dos costumes. No entanto, essa educação não deixa de distinguir o essencial do fútil; há aqui como que uma contradição – cultiva-se a aparência mas há uma consciência da necessidade da busca do essencial. Dessa forma, o jovem vai mesmo mais além do que a educação lhe forneceu. Ele cultiva a reflexão baseando-se em grande parte na função pedagógica da arte e do romance.
O predomínio da mente está patente, por exemplo, na forma como a arte é encarada; uma catedral gótica, por exemplo, é descrita pelas sensações que causa na mente de quem a aprecia, mais do que pelas suas caraterísticas arquitetónicas. Mesmo nas descrições naturalistas – paisagens, a floresta, o rio – o acento tónico é colocado nas sensações e impressões que suscitam.
O título deste volume remete para uma personagem fortíssima no livro que é um cavalheiro aristocrata de nome Swann profundamente admirada pelo jovem narrador (nunca nomeado, ele é uma criança cuja caraterização pode ter sido baseada no próprio Proust). Swann vivia perto da família do jovem e um dos caminhos de acesso à propriedade dessa família passava pela casa de Swann, daí “O caminho de Swann”. Mas este título tem um duplo significado: o jovem admira Swann e tenta seguir o seu caminho.
Swann é um cavalheiro muito bem colocado na alta sociedade, privando mesmo com príncipes. No entanto, apaixona-se por uma mulher, Odette. E Proust utiliza essa relação para deixar clara a sua crítica ao amor romântico e ao casamento: Swnn perde a sua personalidade nesse amor; pior que isso, deixa de ser bem visto na sociedade porque a “fama” de Odette era má. Tudo isto talvez tenha algo a ver com a condição homossexual de Proust, que via a heterossexualidade de uma forma muito crítica. Mesmo o jovem narrador, admirador de Swann acaba por seguir as suas pisadas e deixar-se levar pelo amor, curiosamente pela filha de Swann. A condição feminina não é muito valorizada pelo autor; o jovem tem um amor sublime pela mãe, sonhando todos os dias com o momento em que ela o beijará à noite, mas, pelo contrário, Odette é vista como algo pérfida e a maioria das personagens femininas secundárias são pouco valorizadas, dando demasiada atenção às aparências. Proust deixa bem claro que a verdadeira beleza não está no feminino mas na arte e na natureza.
Em conclusão, estamos perante uma obra profundamente reflexiva, filosófica nos temas abordados e poética na linguagem. No entanto, a narrativa de romance dá-lhe alguma leveza e convida à leitura. Por outro lado há que ter em conta o marco imenso que a obra constitui na História. Mas os próximos livros certamente continuarão a testemunhar os motivos desta importância.
Magnífica tradução de Mário Quintana nesta velhinha edição da mítica coleção Dois Mundos.

Sinopse (in Folha de S. Paulo - http://biblioteca.folha.com.br):
"Cessara de me sentir medíocre, contingente, mortal. De onde me teria vindo aquela poderosa alegria?"
Com estas duas frases, o narrador de Em Busca do Tempo Perdido registra o momento de epifania que o fará reconstituir toda sua vida, desde a remota infância até a maturidade.
A cena é aquela em que a personagem mergulha um pedaço de bolo --a famosa madeleine-- numa xícara de chá e, a partir daí, se deixa transportar pela memória. Está no começo de No Caminho de Swann, volume inicial do mais importante ciclo romanesco do século 20.
Lançado por Marcel Proust em 1913, depois de ter sido recusado pelas principais editoras francesas, este livro se concentra no período de formação do protagonista: o amor intenso pela mãe e a pouca simpatia pelo pai; o ambiente familiar dominado por mulheres; os sentimentos precoces de ódio e de culpa; as temporadas na provinciana Combray, com suas histórias locais; os primeiros contatos com pessoas que iriam viver, envelhecer e desaparecer sob os olhos do narrador.
Entre as muitas figuras que povoam o mundo de Proust, neste volume se destacam o rico sr. Charles Swann e a jovem e sedutora Odette de Crécy (casal interpretado no cinema por Jeremy Irons e Ornella Muti, numa adaptação do diretor alemão Volker Schlöndorff). O capítulo "Um Amor de Swann" é quase um romance à parte: um magistral estudo sobre o ciúme, talvez o melhor que a literatura já produziu.

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