sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Triste Fim de Policarpo Quaresma - Lima Barreto


Comentário:
A quem lê este livro é impossível não recordar o imortal D. Quixote. Quaresma é, tal como o cavaleiro de La Mancha, o idealista ingénuo, o homem que cumpre um sonho se bem que singelo, inocente. Ele era funcionário. Mas, ao contrário de todos os outros (afundados na passividade rotineira) ele vai à procura de um ideal, neste caso a defesa intransigente dos valores da Pátria, que ele considera a melhor de todas. O Brasil é o seu valor supremo e ele pagará caro por esse sonho de mostrar aos seus concidadãos essa grandeza.
Este enredo tão peculiar e interessante é o ponto de partida para um livro cheio de interesse, pela beleza de uma linguagem simples, direta, como quem conversa com o leitor mas também e acima de tudo pela deliciosa crítica, sempre num tom bem-disposto, bem-humorado. Os alvos são vários; a mordacidade da crítica atravessa toda a vida social daquele Brasil de início de século, mas desses alvos sobressaem especialmente dois: os políticos e os funcionários públicos. Os políticos, apenas interessados no voto deixam-se levar por um populismo calculista e por um amor ao poder que os leva aos mais baixos “jogos” de influências; esses jogos são por sua vez conduzidos pela corrupção – tudo se decide mediante os pedidos e os favores. Os funcionários públicos, por sua vez, são criticados pela sua indolência, pela passividade, pela inutilidade e por uma cultura pedante, sem conteúdo.
Mas não fica por aqui a pena mordaz de Lima Barreto. São também seus alvos os costumes: por exemplo o casamento como único objetivo da mulher, o papel passivo do elemento feminino, como espécie de figura decorativa que, no entanto é vítima de um crónico machismo; a personagem Isménia, por exemplo, morre vítima dessa condição feminina. É ainda apontado o pedantismo e a ostentação dos licenciados e até dos escritores dados ao barroco. Os militares são inúteis e corruptos; as suas promoções são obtidas por influências e a sua competência é nula. Mas nem o povo escapa; o desleixo e a indolência são os seus principais defeitos, a par do diletantismo e ignorância das classes altas – “Aquele Quaresma podia estar bem, mas foi meter-se com livros... É isto! Eu, há bem quarenta anos, que não pego em livro...” (fala do general amigo de Quaresma). Mais interessados no poder do que no progresso do país, militares e políticos controlam o povo, conduzindo-o a revoltas e a conflitos dos quais só eles beneficiam.
Em suma, estamos perante um livro que marcou o início do modernismo literário no Brasil, um livro marcante em termos históricos e que podia e devia ser mais divulgado, pelo menos em Portugal.

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