sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Os Transparentes - Ondjaki



Sinopse:
Ondjaki, o escritor angolano já bem conhecido do público por obras como o assobiador (2002), quantas madrugadas tem a noite (2004), os da minha rua (2007), AvóDezanove e o segredo do soviético (2008), entre outros títulos, sempre colocou Angola, e em particular Luanda, de onde é natural, no centro da sua escrita.
Com o presente romance, de novo aparece Luanda - a Luanda atual do pós-guerra, das especificidades do seu regime democrático, do «progresso», dos grandes negócios, do «desenrasca» - como pano de fundo de uma história que é um prodígio da imaginação e um retrato social de uma riqueza surpreendente.
Combinando com rara mestria os registos lírico, humorístico e sarcástico, Os Transparentes dá vida a uma vasta galeria de personagens onde encontramos todos os grupos sociais, intercalando magníficos diálogos com sugestivas descrições da cidade degradada e moderna.



Comentário:
 Luanda em fogo: a destruição provocada pela ânsia capitalista. “A nossa vida está quase grelhada”, diz o cego que anseia por saber a cor do fogo e só a conhecerá na última frase do livro. Ele não sabe a cor do fogo porque o rapaz, o vendedor de conchas, não a sabe explicar. Terá de perguntar a uma criança. Eis o ponto de contacto entre este livro e as obras anteriores de Ondjaki: o fascínio pelas crianças, pelo ingénuo e sábio conhecimento infantil. Porque em outros aspetos, este livro marca um certo ponto de viragem na carreira literária deste autor angolano: é a emergência do desencanto, é a morte e o funeral da Ideologia. O desencanto perante o sonho socialista, vencido pelo poder económico.
De facto, este livro é marcado pelo olhar nostálgico sobre uma cidade vendida ao poder económico, à voracidade cega de um capitalismo desumano e descaradamente criminoso.
Embora cheia de humor, esta obra denuncia de forma aberta e direta a inacreditável tirania da corrupção e das ambições desmedidas dos lideres políticos e económicos de Angola: o livro começa e acaba com a destruição pelo fogo, provocada pela própria ambição da riqueza. Mau grado este aspeto cinzento, crítico, o humor é refinado, de cariz popular e exprime-se numa linguagem simples.
A corrupção está por todo o lado; mesmo funcionários menores aproveitam as benesses do poder para extorquir dinheiro aos mais desfavorecidos; assim devorados pela voracidade do sistema, aos pobres resta inventar meios de sobrevivência. Até as doenças, como uma descomunal hérnia de Edu, pode ser motivo para ganhar “algum”.
Na parte final do livro revela-se a explicação para o genial título da obra: os pobres não emagrecem; ficam transparentes: o corpo torna-se leve até não precisar de comer e a leveza do ser levará Odonato ao céu…
Um crítico literário cognominou Ondjaki de “ourives da língua portuguesa”. De facto, o escritor angolano lida com as palavras como se de filigrana se tratasse: com uma precisão esmerada e sem ornamentos inúteis.
Não há dúvida que estamos perante uma obra genial de Ondjaki: mais sóbrio que nas obras anteriores, embora mais pessimista. No entanto, no espírito de quem lê, fica um tom de fantasia a lembrar Saramago e uma certa magia na abordagem do ser humano que prevalece, pairando acima da corrupção, da desumanidade da classe política e da voracidade de capitalistas sem ética. Um retrato mordaz mas profundamente humano de Angola.
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