domingo, 3 de maio de 2015

Steven Saylor - O Abraço de Némesis


Continuo assustadoramente seduzido por esta coleção Roma Sub-Rosa. O autor é um autêntico Connan Doyle em plena República Romana e o seu herói, Gordiano, um Sherlock Holmes da antiguidade. Além de muitas outras coisas, este livro veio chamar-me a atenção para alguns aspetos desta temática que nós, leitores de romances históricos, tendemos a esquecer. Por exemplo, a República Romana é o verdadeiro berço da mentalidade europeia. Diz-se que o pensamento grego modelou a Europa Moderna. Disparate. O pensamento grego foi profundamente filtrado pelo crivo romano, que o temperou com a vida. Os romanos, nossos antepassados e mentores adoravam viver; mesmo que fosse preciso matar; o hedonismo romano, o seu apego à vida e ao prazer conduziu-os aos limites. No entanto, são limites dolorosos. Aquele Carpe Diem levou-os a fenómenos extremos, alguns deles bem narrados neste belíssimo Abraço de Némesis: a forma como o aristocrata Marco Crasso se dispõe a sacrificar 99 escravos para reforçar a sua carreira política diz bem até que ponto poderia chegar essa fibra romana, essa tenacidade em viver nos limites. 
Nesta altura alguns dos meus leitores poderão estar a pensar: ora, grande coisa, dispor da vida dos outros, ainda por cima escravos… como é que isso pode ser uma forma de viva no limite, ou de assumir riscos? É que da mesma forma que o romano dispõe da vida do escravo, não hesita em colocar o seu pescoço ao alcance do punhal de qualquer inimigo; era vulgar matar por interesse político. Daí que fosse vulgar morrer pelo mesmo motivo e todos os romanos sabiam isso. Na Europa, a morte como algo de assustador e distante é um fenómeno muito mais moderno do que se possa pensar. Basta ver a facilidade como que se morria nas batalhas napoleónicas, 1900 anos depois da República Romana. 
Némesis é a deusa da vingança. Mas uma vingança em função da verdade e da justiça. Neste livro, com um enredo muito imaginativo e engenhoso, conta-se uma estória cheia de interesse não só pelo colorido da realidade de Roma Antiga mas também pela forma como o autor constrói a narrativa, cheia de mistério e incerteza até ao fim. Na verdade, ao contrário do que me aconteceu com outros livros desta série, aqui o autor surpreende sempre o leitor, não deixando grandes pistas para que se possa adivinhar o assassino, nem sequer a forma como a narrativa evolui.
Isto significa que, na minha opinião, este é o livro mais interessante dos que já li desta série; empolgante e muito rico em informação. Por exemplo, as condições de vida dos escravos romanos são aqui descritas em grande pormenor e muito bem enquadradas. Mas um dos aspetos mais interessantes é a abordagem da religião romana, na figura da Sibila. As Sibilas representavam na perfeição o verdadeiro âmago da religião romana: uma mistura perfeita entre crença e superstição. Mas algo mais: uma voz da justiça que contribuía para um certo equilíbrio social. Isso reflete também uma dimensão prática, pragmática da religião. Realista, diria mesmo: a religião estava presente em todos os aspetos do dia-a-dia dos romanos, mas de uma forma muito mais pragmática do que aquilo que vai acontecer com o advento do cristianismo, em que a religião adquirirá uma feição preponderantemente moralista e condicionadora dos comportamentos. Por exemplo, o amor heterossexual só se afirmará com o paradigma judaico-cristão; neste livro está bem patente a naturalidade do amor a que hoje chamamos de homossexual e que para os romanos em nada se distinguia da heterossexualidade.

Sinopse (in wook.pt)
No sul de Roma, fica situada a magnífica vila de Marco Licínio Crasso, o mais rico cidadão romano. Quando o supervisor da propriedade é encontrado morto, Crasso conclui que terão sido dois escravos pertencentes ao Movimento de Libertação de Escravos. Mas quando Gordiano, o Descobridor, é chamado para investigar, a realidade revela-se muito diferente..

17 comentários:

José Passarinho disse...

Seria fácil mas não vou comentar a opção do Steven Saylor. Só me desgasta um pouco o facto de a tornar tão evidente ao longo de cada obra. Continuo a ler O Conde de Monte Cristo. Li os comentários (excelentes) do Manuel sobre este e sobre Os Miseráveis. Decidi-me pelo Montecristo porque não conheço a hitória, embora considere que Os Miseráveis poderão estar um pouco acima na escala... Para já o ritmo narrativo está a surpreender. A tradução, o livro é da colecção Classicos das PEA, está a corresponder mas já encontrei gralhas... Pena que estes Clássicos não estejam no catálogo da Relógio D' Água. O Manuel já leu alguma obra de Amos Oz? Este fim de semana voltei a recomendar A Terceira Condição e o muito bom Uma História de Amor e Trevas. Ambos mereciam uma reedição e algum destaque editorial, porque devem estar perto de esgotar...

José Passarinho disse...

Como hoje o dia é mesmo muito especial, partilho convosco que, se ainda houvesse o programa "quando o telefone toca...", pediria uma música... Deolinda de Jesus do António Variações, mas na interpretação de Isabel Silvestre. Porque todas as mães e filhos compreendem a letra e a aceitam, seja qual for a história de cada mãe e de cada filho(a).

Manuel Cardoso disse...

Olá José
Amos Oz é um dos que me faltam :(
O ritmo narrativo do Conde de Monte Cristo é alucinante. É daqueles livros que se devoram. Os Miseráveis está num patamar superior porque ultrapassa em muito o romance; é aquilo a que chamaríamos no século XX uma obra "de intervenção". E de reflexão.
Embora seja um admirador de A. Variações, não me lembro dessa música. Vou procurar...

Manuel Cardoso disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Manuel Cardoso disse...

obrigado por me lembrares essa bela canção, José. Lindíssima...
https://www.youtube.com/watch?v=zIaN8JjfLxI

C. disse...

em jeito de provocação ;)- E se tirássemos os gregos aos romanos? :P

José Passarinho disse...

Tenho estado a ponderar a compra de "A Feira das Vaidades" mas não encontrei o comentário do Manuel, terá já lido? Tem algumas referências? Reparei que o filme tem uma excelente fotografia, mas não o vi. No caso de comprar o livro não quero ter presente o filme enquanto leio. Haverá edição alternativa, em qualidade, à das PEA?

Manuel Cardoso disse...

Olá C. (sempre bom responder a perguntas tuas)
Se eu soubesse responder a essa pergunta seria a primeira tese de doutoramento publicada numa mensagem do blogspot! Meu Deus, o que haveria para dizer sobre isso.
Desde logo, muito provavelmente não estaríamos aqui. Que Europa seria esta sem os Gregos? Não existiria Europa como a conhecemos sem a Razão, a Inteligência, a Filosofia,o Direito, a Arte à medida do Homem, o Humanismo, o Racionalismo, esse admirável estoicismo, e tantas tantas coisas belas com que os romanos temperaram aquele instinto devorador, típico de um povo guerreiro!
Sem os Gregos, que referências ficariam aos nossos queridos romanos? É difícil mas é também divertido pensar nisso... todos os povos precisam de referências e os romanos mais que ninguém pois os latinos da República eram já um povo ambicioso, que procurava o luxo mas também a excelência no saber e no pensar. Portanto, sem os gregos eles disporiam, como referencias, dos herdeiros de Alexandre,os Macedónios.Mas sem Gregos também não haveria macedónios... :)
Restariam os persas (ou os seus vizinhos do Ponto) e os Egípcios. Uma vez que os persas eram inimigos figadais dos romanos, restaria a bela Cleópatra para iluminar os romanos com a sabedoria dos sacerdotes e escribas do místico Egito. E teríamos então um povo imperial que seria uma espécie de mistura dos bárbaros do tipo Hunos de Átila, (daqueles que comiam carne crua aquecida no dorso dos cavalos e bebiam sangue por tigelas feitas com o cranio dos inimigos), com as crendices, o misticismo mas também a superstição dos egipcios.
Fico por aqui porque o resto cabe à nossa imaginação: uma coisa é certa: sem os gregos antigos,nem a Varoufakis I a Europa tinha chegado :)

Manuel Cardoso disse...

Olá José
Não,nunca li esse livro.
Já ouvi dizer que o filme é muito bom. Sobre o livro, penso que é uma espécie de romance histórico sobre uma época que me atrai bastante, as guerras napoleónicas, mas nunca calhou de me vir parar às mãos nem tenho edição nenhuma. Fui agora ver ao site da wook e só lá tem a edição da Europa América,como sempre bem apresentada mas CARÍSSIMA. Mais de 30 euros por um livro que é domínio público? (ou não será?)

José Passarinho disse...

De acordo. Devíamos ter uma edição permanente de clássicos, com boas traduções e a um preço quase de custo de produção. Salvam-nos as edições dos jornais e as promoções mais descaradas da fnac on line e do wook... para quem permanece fiel ao velho e inseparável livro em papel!

C. disse...

Olá Manuel :)
Acho que já te tinha dito que adoro as tuas respostas, são inteligentes e bem-humoradas. Obrigada :)
Ao dar uma olhadela na análise do livro sobressaiu a afirmação "Por exemplo, a República Romana é o verdadeiro berço da mentalidade europeia. Diz-se que o pensamento grego modelou a Europa Moderna. Disparate.". Ora, fiquei a matutar na questão (tão bom :) ), a tentar aceder à informação mentalmente arrumada, e apesar de compreender genericamente a matriz cultural europeia como greco-latina, a verdade é que em termos do pensamento, da mentalidade pendo para os gregos. Obviamente que também os gregos se apropriaram de aspectos culturais de outros povos, mas na verdade quando penso na filosofia, na literatura e na religião penso que os romanos na prática se apropriaram do que até então tinha sido desenvolvido pelos gregos dando-lhes novas roupagens, outros nomes (ponho frente a frente a iliada/odisseia e a eneida, os próprios deuses). Aos romanos atribuo-lhes uma organização estratégica, militar, e estes serão elementos chave para impor uma nova visão, novos hábitos aos povos dominados. Claro, que durante o domínio romano tivemos vários períodos, portanto houve ali um momento de "esplendor", mas mesmo assim concedo-lhes a vida prática, mas no campo das ideias não consigo (e penso em virgílio, horácio, marcial, o lucrécio que me falta ler, mas não creio que a opiniao mude).
Mais duas coisas que isto já vai longo:
- o Saylor tem um livro-"Roma"- sabes se é dentro do mesmo género "thriller histórico" dos que tens lido?
- Já leste o "Memórias de Adriano" da Yourcenar (não o encontrei aqui no blog, o livro é fabuloso)
bjinho :)

Manuel Cardoso disse...

Cara amiga C., isso leva-me a colocar a tua pergunta inicial ao contrário: o que seria dos gregos sem os romanos?
Obviamente, os gregos antigos viveram antes dos romanos, pelo que só teriam sido invadidos pelos alemães e pela Troika e não pelo exército romano :)
Mas a herança europeia seria completamente diferente; teríamos recebido uns gregos muito chatos, demasiado filosóficos, pouco dados à vida prática, como aquele filósofo que era genial mas vivia num barril (Diógenes, penso).
Ou seja: 0s romanos transmitiram-nos uma cultura grega temperada com a vida. Não sei se já estiveste em Roma; aquele sol escaldante, aquele calor abafado, aquele rio com uma cor verde tão estranha, aquelas colinas, tudo aquilo convida a ficar refastelado num triclinium, comendo uvas e sendo abanado por escravas em trajes menores (ou escravos, conforme os gostos). Claro que para isso tinha de haver guerra; tinha que haver fartura de prisioneiros para escravizar. E foi precisamente no período da República que se plasmaram todos esses fatores e se construiu, na minha maneira de ver, a mentalidade europeia. Daí sermos hoje um continente que tem um certo prazer na cultura, um espirito científico que nos valeu séculos de progresso, uma diversidade religiosa e cultural onde (embora se vá perdendo) predomina a tolerância e a convivência entre povos. Nessas coisassomos gregos.
Por outro lado, somos romanos no imperialismo que desde a Idade Média queremos impor ao mundo, assim como o diletantismo, uma tendência terrível para o sexismo, mas também para coisas mais belas como a música (ai a Música, meu Deus!), a comédia, o desporto, etc.
Isto já vai longo mas tinha de ser; fizeste-me pensar em perspetivas pouco habituais e isso é bués de bom :)

Sim, sei que há esse livro "Roma" e presumo que seja anterior a esta série. Comecei por estes por uma razão muito simples: estavam baratinhos na Bertrand :)
As Memórias de Adriano: um dos clássicos que ainda não li. Tenho cerca de 20 numa lista de "urgências", onde constam 3 ou 4 Dickens, 2 Hugos, 1 Dostoievski, Twain, Huxley, Stendhal, etc.
Tanto para ler..........

José Passarinho disse...

Tem, então, matéria para manter o blog em grande. 2 VH? Quais? Também tenho na minha lista O Vermelho e o Negro. E quero em breve iniciar a leitura de Dostoievski (é verdade, Iniciar!).

Manuel Cardoso disse...

José, material para atualizar o blogue tenho; mo pior é lê-los :)
Aqui fica o conteúdo do ficheiro word que compus em janeiro. De lá para cá só li o 13.
Clássicos a ler em 2015

1.O Vermelho e o Negro -Stendhal
2.Em busca do tempo perdido - Marcel Proust (7 livros)
3.Os Trabalhadores do Mar - Victor Hugo
4.Memórias do Subsolo Fiódor Dostoiévski
5.Eugene Onegin - Alexander Pushkin
6.Entrevista com o vampiro - Anne Rice
7.As Aventuras de Tom Sawyer - Mark Twain
8.Huckleberry Finn - Mark Twain
9.Admirável Mundo Novo - Aldous Huxley
10.O Aleph - Jorge Luís Borges
11.Grande Sertão: Veredas - Guimarães Rosa
12.Grandes Esperanças- Charles Dickens
13.Nicolas Nicleby - Charles Dickens
14.O Pendulo de Foucoult – Umberto Eco
15.David Copperfield - Charles Dickens
16.Memórias de Adriano- Marguerite Yourcenar
17.Oliver Twist (Charles Dickens)
18.A Letra de Escarlate (Nathaniel Hawthorne)
19.O Último dia de um condenado – Victor Hugo

(são 19 e não 20)

José Passarinho disse...

Boas escolhas! A aposta em Charles Dickens é segura, Stendhal e Twain também. Proust não é escolha para mim, por agora. Aproveite em todo o caso a tradução, que dizem excelente, de Pedro Tamen. Falta Amoz Oz :) tem que conhecer o Fima de A Terceira Condição. E falta :) Updike, a tetralogia do "Coelho" antes que esgote e que se compra por vinte euros ou menos (os quatro volumes com umas 2000 páginas no total).
Eu também tenho uma lista longa, tenho dois livros de Ildefonso Falcones por ler e quero redescobrir Zélia Gatai e Jorge Amado! Como já disse não li Dostoievski e tenho os "irmãos" e o "crime" para ler antes que tenha algum castigo. E estou a ler "O Conde de Monte Cristo", depois posso seguir para Os Miseráveis ou para algum de Dickens (por agora só tenho o Grandes Esperanças)... E, depois, O Vermelho e o Negro.
Note, Manuel, que, de quando em vez, intervalo com alguns "não clássicos". Como penso que já disse antes, sou fã de Preston & Child. Leio Saylor e Scarrow, Grangé e Follett no verão, e mais que apareça. Na feira do livro vou comprar o Guerra e Paz...

Manuel Cardoso disse...

Eu também intercalo com os "levezinhos" de qualidade. Ultimamente tenho abusado de Saylor e Follett.
Updike já li 2 ou 3. Gostei sem entusiasmo.
Guerra e Paz, para mim é o 2º melhor livro da história da literatura.
Amos Oz vai esperar um bocadinho :)

Paula disse...

Acho que tenho esse livro, mas uma edição diferente!
vou confirmar.
Também gosto da escrita do autor.