domingo, 12 de setembro de 2004

Baudolino - Umberto Eco

Um retrato vigoroso, eloquente, do imaginário medieval europeu/cristão. H. Eco exprime em forma de romance todo um mundo fantástico, feito de mitos e lendas terras assombrosas, animais e seres semi-humanos mas a tudo dá o sentido do real. Aliás, aí reside o génio maior desta obra: consegue retratar com fidelidade um mundo onde o fantástico e o real se confundem permanentemente. Baudolino é, aos nossos olhos de cidadão do séc. XXI, um grande e descarado mentiroso. Um requintado aldrabão. Mas no universo fantástico da Idade Média as suas estórias, uma vez contadas, são reais. Como real é o Graal feito com uma tigela tosca do pai de Baudolino. Como em tudo o resto, nas relíquias fabricadas existe a verdade que as pessoas nela querem ver. A fantasia é mais do que a substituta do conhecimento científico; é um instrumento precioso, indispensável mesmo, para o conhecimento e a construção do real. Trata-se de uma obra essencialmente descritiva: o Império Sacro-Romano de Frederico Barba Roxa, os conflitos entre as cidades italianas de onde emerge Alexandria (terra natal de Baudolino e de Eco), o 1º grande Cisma, as Cruzadas e o fabuloso reino do Prestes João que fica ao lado do Paraíso Terrestre, para lá das terras dos homens sem cabeça. Mas também o Santo Graal e as relíquias falsas mas reais. Este carácter descritivo retira à obra aquele fervilhar de imprevisibilidade que a impede de rivalizar com “O Nome da Rosa”. Por vezes a acção torna-se monótona e previsível mas fica o enorme mérito de Eco ter compreendido e transmitido com fidelidade todo o imaginário de uma Idade Média não obscura mas encantadora e encantada.
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