domingo, 21 de fevereiro de 2010

Werther - Goethe

Werther é um jovem que se afasta do mundo urbano para usufruir da natureza numa aldeia verdejante e simpática. A partir daí dá conta do seu quotidiano numa série de cartas dirigidas ao seu amigo Guilherme.
Werther vive num lugar paradisíaco; todas as descrições que faz do local são eivadas de um assinalável bucolismo. A paz e a felicidade parecem emanar da natureza. Desde logo, o bucolismo surge associado ao amor. Em breve Werther encontra Carlota, por quem se apaixona perdidamente. Carlota parece ser, ela própria, uma emanação da terra; algo de muito puro, caracterizada por uma alegria que só podia ser fornecida pela terra e pela natureza.
A paixão por Carlota surge de uma forma avassaladora. Qualquer pormenor, qualquer gesto ou palavra da formosa jovem são vistos por Werther como algo sagrado. A paixão vai-se tornando irresistível. É o idílio total, ao ponto de atingir a negação da própria personalidade (“O mundo não existe já para mim”). É o amor como forma de despersonalização total. No entanto, a felicidade de Werther leva-o a considerar mesmo que é dever de qualquer ser humano viver essa felicidade pois só assim levará alegria aos outros. O mau humor é uma agressão aos outros seres humanos. A paixão arrebatada, essa espécie de loucura, é vista por Werther como uma atitude grandiosa, própria dos grandes homens se bem que as pessoas vulgares as encarem como “coisas de loucos”.
O sonho e a ilusão são vistos como fonte de felicidade. Pergunta, no entanto, Werther: “Será quimera o que nos torna felizes?”
Em breve, a realidade abater-se-á sobre Werther. O aparecimento de Alberto, noivo de Carlota, transformará o idílio num tormento. Entretanto, Werther parece encarar Alberto como uma extensão da própria Carlota; e o afecto que dedica ao rival parece ser também uma extensão do amor que sente por ela; Werther parece amar Alberto porque ama Carlota.
Mas a presença do noivo marca a viragem cruel no destino desta paixão. Werther é assolado pela crueza da realidade; num discurso profundo e amargurado, Goethe justifica (pela voz de Werther) racionalmente o suicídio como a única cura para uma doença mortal, procurando desde logo a justificação moral para um acto que a sociedade puritana do século XVIII condenava com veemência.
A razão nada pesa quando o homem é atingido pela paixão; por isso, é também no domínio das emoções que se pode entender o suicídio.
A ideia chave com que se chega ao final desta primeira parte é uma conclusão avassaladora: tudo o que faz a felicidade de um homem é a origem dos seus males.
Na segunda parte do livro o desânimo de Werther acentua-se; no entanto, é curiosa a forma como Goethe nos dá conta de uma certa altivez quando o jovem atormentado atribui ao talento e à coragem a falta de auto-confiança. Não deixa de haver aqui uma certa ironia: a coragem revela-se inimiga da vontade de lutar? Coragem para quê? Para assumir a derrota? No entanto, para lá desta ironia aparente, podemos detectar aqui o grande gérmen do romantismo literário: a assumpção do sofrimento como acto de heroísmo.
Um outro aspecto aparentemente irónico do enredo é o facto de Werther, constantemente, acusar a desigualdade social, em defesa dos desprotegidos mas, ao mesmo tempo, assumindo-a como necessária e até como sendo beneficiário dessa mesma desigualdade; mais uma vez, a contradição é apenas aparente: viviam-se os últimos tempos do Absolutismo Régio, em que a mentalidade colectiva encarava a desigualdade como natural e incontornável; neste contexto, Werther revela mesmo aquilo a que hoje chamaríamos ideias pré-revolucionárias.
É nítida a antipatia do jovem em relação à frivolidade dos meios sociais de elite; Werther demite-se do seu trabalho, em parte, devido à inadaptação a essa frivolidade. No entanto, essa demissão é antes e mais uma fuga. Werther tenta fugir de si mesmo. Regressa então à casa de infância; mais uma vez, a fuga! Pouco tempo depois, coloca a hipótese da fuga para a guerra. No entanto desiste da ideia porque decide voltar para junto de Carlota. A rendição ao amor. Mas porquê este regresso ao lugar onde nasceu a sua infelicidade? Mais uma vez sobressai a ideia de procura de um certo heroísmo no sofrimento. Sofrer é um acto de coragem, não de resignação. Por outro lado, é a necessidade de fuga a si mesmo. A negação radical do “eu”. A entrega final de si próprio a um amor que hoje consideramos desmedido e doentio mas que, à luz da mentalidade da época e dos cânones da literatura romântica não é mais que um amor heróico.
Heróico até à morte; heróico no suicídio!
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