quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Diário da Nossa Paixão - Nicholas Sparks

Antes de começar a leitura vale a pena dar uma vista de olhos à ficha técnica desta edição da Presença. Isto por dois motivos:
Em primeiro lugar, o título original do livro é “The Notebook” que, traduzido à letra, significa “O caderno”. Perante o sucesso inquestionável do livro, fica a pergunta: quanto vale um título apelativo, mesmo desvirtuando o original? Ou, por outras palavras, quantos milhares de livros conseguem vender-se graças a um título? Longe de mim insinuar que o sucesso desta obra se deve ao título, mas não tenho dúvidas que a escolha foi comercialmente muito feliz.
Segundo aspecto de realce na ficha técnica: estamos perante a 50ª edição deste romance, em dez anos! Inacreditável! Quantos autores se poderão orgulhar de um sucesso como este?
Perante um livro como o Diário da Nossa Paixão, qualquer leitor com algum conhecimento de causa sabe que se trata de uma obra essencialmente comercial ou, pelo menos, marcada pelo sucesso comercial. No entanto, parece-me injusto avaliar o romance por esse prisma. Para uns, é um grande romance porque vendeu muito, para outros é um mau livro porque é “light” e porque é muito comercial.
Por mim, prefiro abster-me dessa perspectiva e afirmo apenas que é um bom livro. E é bom porquê? Não tanto pela história de amor, mas principalmente pela maneira como me fez pensar no carácter efémero da vida humana. Nem mesmo um relacionamento para toda a vida ultrapassa as fronteiras da precária e limitada existência humana. Tudo acaba com a morte e, por vezes, dramaticamente, com uma espécie de morte em vida. Por mais felizes que as pessoas possam ser, há aspectos da vida, talvez os mais importantes, que trazem consigo a amargura do ser apenas humano.
Por outro lado, no meio da felicidade de duas pessoas há sempre alguém que fica para trás; na luta da vida há sempre alguém que perde. Lon, o noivo de Allie, tem uma postura corajosa, quase heróica, perante a “derrota” da sua paixão. Ele opta por respeitar os sentimentos de Allie aceitando pacificamente as opções dela. Fica, logo ali, o “amargo de boca” do leitor perante alguém condenado à derrota sem culpa formada.
No entanto, o que mais afecta a sensibilidade do leitor é o desfecho da vida de dois seres que se amaram, que foram felizes mas que nada podem perante a precariedade da vida humana; perante uma luta desigual onde o perdedor é sempre o ser humano.
Por tudo isto, não li este livro como um hino ao amor ou à paixão; não é um romance de cordel ou uma novela de amor. É um livro que nos faz pensar no drama da existência humana, no sentido da vida e no peso que um sentimento pode ter na existência humana. O sucesso de um relacionamento, aquilo a que às vezes chamamos felicidade não é mais que uma forma de preencher a vida, essa viagem com fim marcado, uma viagem só de ida.
Em suma, não se trata de uma obra-prima; não é um livro de referência, mas fica a sensação que poderia ter sido, se o autor tivesse optado por um desenvolvimento mais aprofundado dos dilemas que marcaram a existência de Allie e de Noah. No entanto, ter-se-iam perdido outras características essenciais que contribuíram para o sucesso do livro: a facilidade de leitura, o ritmo narrativo e um certo suspense em relação ao desfecho do enredo.
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