sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Cão Como Nós - Manuel Alegre

Ler a prosa de Manuel Alegre é sentir o prazer da poesia sem ler poesia.
Kurika é um cão rebelde; faz tudo ao contrário, não responde à voz nem lambe as mãos. Um cão contestatário.
Um cão como nós, os que a todo o momento somos empurrados para as obrigações e a obediência. Mas, com o querer de quem luta, o cão ganha sempre.
Cão como nós, que finge e amua. Que mente descaradamente. Que é o que não é.
Cão como nós que nem da morte tem certezas; se tem/temos espírito; se o espírito nos tem a nós.
Cão como nós, prisioneiros dos sentimentos, carcereiros de emoções, cães que choram.
Cão como nós, cães que amam e se unem na angústia e no orgulho. Camarada cão. Melhor amigo do homem? Tretas! Camarada cão!
Cão como nós, a quem a tristeza se vê nos olhos, uma tristeza que não chega à palavra, apenas às falas da alma: o olhar, a poesia ou o silêncio.
Cão como nós que por uma vez se perde entre amores de verão, uma vez apenas, com tempo contado e previsto, sem eternidade, porque “não há outra eternidade senão a solidão partilhada”.
Cão como nós de quem até a morte parece ter medo, se bem que, no final da batalha, ela saia sempre vencedora.
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