segunda-feira, 9 de abril de 2012

Corpo de Mentiras - David Ignatius


O Corpo de Mentiras não é mais um livro de espionagem. Não deixa de ser verdade que se enreda nos habituais clichés: o triângulo amoroso entre o agente secreto, a esposa ciumenta e a amante boazinha e irresistível, os mauzões e os bonzinhos, o final apoteótico, os terríveis acidentes que atingem toda a gente exceto o herói, etc.
Mas não é um mau livro. Longe disso; a escrita é fácil, atrativa, muito agradável e Ignatius tem aquele raro dom de transformar as palavras em imagens. Não é por acaso que este livro foi adaptado ao cinema logo que foi publicado (ver aqui o filme no IMBD). 
No entanto, há algo mais neste enredo: a abordagem dos métodos usados pelos serviços secretos norte americanos e, especificamente, a estratégia de provocar atos terroristas no seu próprio terreno com a finalidade acusar outras nações ou grupos.
Houve mesmo muita gente que encarou seriamente a hipótese de o próprio 11 de Setembro ter sido provocado por americanos. David Ignatius apresenta-nos aqui um enredo em que tal estratégia é usada e explica-nos como é possível manipular totalmente a informação e a própria opinião pública; aqui tudo é controlado, inclusive a própria vida pessoal dos personagens; este é o segundo aspeto em que o livro nos traz algo de novo: a vida humana é completamente desprezada em função dos interesses do país.
Por detrás desta perspetiva crítica está latente um certo desencanto perante aos sinuosos processos seguidos pelos serviços secretos americanos. David Ignatius é jornalista há mais de vinte anos e quase sempre dedicado a questões de política internacional Possivelmente este emaranhado de processos pouco éticos constituem aquilo que Ignatius nunca pode revelar enquanto jornalista.
O desencanto de Ignatius em relação ao seu país está bem patente neste trecho do livro (fala o chefe dos serviços secretos jordano): “Graças a Deus que ainda têm amigos. Apesar de não saber bem porque é que ainda há alguém disposto a ajudar-vos, para lá do facto de serem tão ricos.”
Está de parabéns a Bertrand por esta edição. Um livro que é mais um exame de consciência sobre a hipocrisia americana.

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