domingo, 9 de março de 2014

Mistérios de Lisboa - Camilo Castelo Branco





Sinopse:
Alexandre Cabral em Dicionário de Camilo Castelo Branco considera os Mistérios de Lisboa o "produto de uma imaginação truculenta e incontrolável". "Os enredos - múltiplos e diversificados - entrelaçam-se no conjunto dos 3 vols., sendo os seus protagonistas personagens estranhas que têm em comum a faculdade exótica de mudarem de nome com a mesma facilidade como quem muda de camisa. Assim, Pedro da Silva, conhecido por João, chamar-se-á também Álvaro de Oliveira; o "Come-Facas" usava os seguintes pseudónimos: Barba-Roxa, Leopoldo Saavedra, Tobias Navarro e Alberto Magalhães, e Sebastião de Melo faz-se passar pelo padre Dinis Ramalho e Sousa e duque de Cliton. Por outro lado, a vastidão do mundo (Portugal, França, Bélgica, Inglaterra, África, Japão e Brasil) é o cenário onde se desenrolam os conflitos ficcionais, marcados por vectores que perdurarão na novelística camiliana: a vingança, o anátema, o amor de mãe, a passionalidade, que se confunde com a ganância, a perversidade e a santidade. De permeio indícios vários de reminiscências biográficas do autor." Mais de 150 anos após a sua publicação original o livro "em que os pecadores podem ascender à virtude, e a virtude se conquista através de sofrimentos e lágrimas" é levado ao cinema pelo realizador Raúl Ruiz.
In wook.pt
 Comentário:
Camilo Castelo Branco publicou esta obra com apenas 28 anos, constituindo a sua primeira obra de grande folego. Não é, nem de perto nem de longe, uma leitura agradável; trata-se de um livro muito extenso, com centenas de personagens e um enredo algo complexo, em que as personagens aparecem e desaparecem de cena de forma algo abrupta. Também as coincidências, essas inimigas da boa ficção, se multiplicam de forma perturbadora. Talvez, nesta fase da sua vida, Camilo ainda procurasse um estilo, mas a experiência acabou por redundar num livro excessivamente extenso e exagerado em vários aspetos.
É conhecida a famosa instabilidade de Camilo enquanto escritor. Ele é, na sua base, um romântico mas vai mesclando esse predomínio com traços realistas e até naturalistas. No entanto, neste livro reina um forte e exagerado romantismo, na análise psicológica das personagens e, principalmente numa visão catastrofista da vida.
Nas novelas tipicamente românticas do século XIX, a tendência das personagens femininas vai para o desmaio fácil, o choro e o desespero. Aqui, pura e simplesmente, elas morrem! Convento, loucura e morte. Isto, para o leitor comum, como é o meu caso, chega a ser desesperante. Desistir da leitura foi uma tentação constante. Não o fiz por saber que se trata de uma obra fundamental na bibliografia de Camilo; mas chega a ser desesperante a forma como Camilo deixa as suas mulheres cair numa profunda e dramática instabilidade mental e na velha e irritante estória da morte por amor!
Quanto aos homens, esses chafurdam no amor, deixam-se ridicularizar pelas paixões e acabam em duelos de honra! Irritante! O aspeto mais positivo desta obra é, a meu ver, a abordagem de temas fulcrais da realidade social e política da época, nomeadamente as convulsões provocadas pela guerra civil entre miguelistas e liberais e, acima de tudo, a crítica ao sistema de morgadio vigente na época. É nítida uma certa compaixão e mesmo revolta do autor perante o desprezo a que eram votados os filhos segundos, em detrimento do morgado. Também os filhos ilegítimos, os direitos das mulheres, a ignorância da burguesia e a arrogância da nobreza são temas fulcrais na época, a partir dos quais a escrita de Camilo se aproxima da abordagem realista, tão bem cultivada pelo seu contemporâneo Eça de Queirós.
Em suma, trata-se de uma obra onde Camilo parece ter procurado uma certa erudição, uma profundidade narrativa talvez influenciada pelo romantismo francês mas que redunda num enredo pastoso, difícil, pejado de coincidências inacreditáveis e, acima de tudo, uma melancolia quase macabra onde a morte espreita por todos os lados, até dominar todo o enredo.

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