domingo, 8 de junho de 2014

A Guarda Branca - Mikhaíl Bulgákov


Sinopse:
Primeiro romance de Mikhaíl Bulgákov, largamente inspirado nas suas experiências pessoais, A Guarda Branca apresenta-nos a cidade de Kíev, em 1918, através dos olhos dos irmãos Turbin. Mergulhados no caos da guerra civil, Aleksei, Elena e Nikolka constituem um retrato brilhante das crises existenciais provocadas pela guerra e pela perda de alicerces sociais, morais e políticos.
in www.presenca.pt

Comentário:
Se é difícil compreender o que actualmente se passa na Ucrânia, é incrível como um livro escrito em 1926 nos pode ajudar  a  contornar essa dificuldade.
A povo ucraniano foi um dos mais martirizados pelo incrível processo de mudanças políticas nos primeiros 25 anos do século XX: na sequência do domingo sangrento, em 1905, em que tropas do czar assassinaram milhares de camponeses famintos, o processo revolucionário foi despoletado e viria a culminar com a revolução bolchevique de 1917. Entretanto, a Rússia abandonara a primeira guerra mundial, deixando vários territórios nas mãos da Alemanha, pelo vergonhoso tratado de Brest-Litovski. Dessa forma, os ucranianos ficaram abandonados a uma multiplicidade de conflitos: os Alemães, derrotados na guerra, rapidamente abandonaram os ucranianos; os Russos encontravam-se mergulhados no conflito entre os socialistas moderados do Exército Branco e os Bolcheviques do Exército Vermelho; na Ucrânia, uns sonhavam com o regresso à paz czarista e autocrática, outros alinhavam com a revolução bolchevique e outros encaravam o exército branco de Kerenski como o compromisso de salvação. Outros ainda apoiavam um cacique local, o sanguinário Petliura, que se afirmava nacionalista mas não hesitando em massacrar os seus opositores ucranianos.
É entre esta terrível encruzilhada de interesses que encontramos os irmãos Turbin, generosos e ingénuos, lutando como podem pelo poder branco, aquele que consideram mais justo.
O irmão mais velho, Aleksei, é o alter-ego do autor, médico e combatente algo ingénuo mas um verdadeiro resistente. Nikolka, o mais novo, é um generoso combatente. Por todo o lado,  no entanto, reina a violência e o horror da guerra; uma guerra terrível, entre compatriotas, abandonados por russos e alemães, entregues aos mais violentos oportunistas.
O mais terrível deste livro é que nele encontramos uma assustadora actualidade; entre ideologias e interesses, é o povo quem se sacrifica sempre.
No estilo profundamente poético de Bulgákov encontramos, no entanto, a sua tendência para a dramaturgia; em muitos momentos o leitor dá conta de estar a ler uma verdadeira peça de teatro. Assim, é notável a junção de uma escrita poética a uma magnifica objectividade das descrições e clareza dos diálogos.
Ou seja, estamos perante um bom exemplar da melhor literatura russa, se bem que muito longe daqueles que eram os ídolos de Bulgakov, então em início de carreira, principalmente na influência notável da análise psicológica e crítica social que caracterizaram esse grande mestre que foi Fiodor Dostoievski.
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