segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Contos da Montanha - Miguel Torga

Comentário:
Quando li este livro pela primeira vez tinha menos de 15 anos. Hoje, cerca de 35 anos depois, na memória pouco sobrava do enredo. Mas lembro perfeitamente a forma como estes personagens me atingiram; a pobreza quase extrema de um Portugal rural e desprezado; a honestidade e a honra de quem sabe atribuir todo o valor ao suor, ao sangue e às lágrimas; o sofrimento de quem trabalha apenas para sobreviver; mas também a alegria que vem da terra e do sol; a beleza da serra e dos penedios; a verdura da floresta e tudo isso, ainda assim, a iluminar a alma das gentes.
Às vezes não é fácil compreender Torga. Talvez porque para sentir o que ele descreve é preciso amar Trás os Montes. Aquelas montanhas falam uma linguagem diferente da nossa, homens urbanos do século XXI. Falam o dialeto da terra, nascido das raízes célticas de um povo que brotou da própria terra.
No prefácio à oitava edição deste livro, Torga salienta a época de emigração que se vivia (1968) devido à falta de recursos económicos e de liberdade. E o livro seria assim uma espécie de homenagem à terra que os homens eram forçados a abandonar. Nada de novo, nada que não mantenha um toque de atualidade...
O primeiro conto, Maria Lionça é profundamente simbólico e ajuda-nos a perceber toda a "alma" do livro: o retrato de Maria Lionça, a moça perfeita, é uma espécie de retrato da terra, enquanto elemento positivo, que fornece alimento mas também alegria aos homens. Mais do que emanação da terra, ela é a própria terra, uma espécie de Deusa-Mãe das comunidades neolíticas. Mas a vida encarrega-se de mostrar como o destino das pessoas, tal como o da terra, não é feito de esperança e de alegria: a vida é sofrimento e morte. E, no final, na morte, é de novo a terra que se abre para receber os homens.
Grande parte do sucesso destes contos reside numa espécie de sensibilidade dramática de Torga. Regra geral não há uma intenção moralista; muitas vezes acabam mal como a vida acaba mal. Nada nestes contos faz lembrar a tradição romântica do romance rural; estão muito longe os tempos de Júlio Dinis. Pelo contrário, predomina uma perspectiva marcadamente realista desse mundo rural, em que o romantismo da pureza de alma das gentes serranas é substituído pela crueza de um conceito de honra por vezes impiedoso e por uma visão do mundo algo irracional, que Torga aborda com um espírito crítico discreto, muitas vezes envolto num sentido de humor mordaz. Nada disto impede, no entanto, que a voz da terra se faça sentir com toda a força, fazendo deste livro, ele próprio, uma verdadeira força da natureza.

Sinopse:

Miguel Torga publicou em 1941 o livro de contos Montanha, que imediatamente foi apreendido pela polícia política. Em carta de Abril desse ano, Vitorino Nemésio, solidarizando-se com o amigo, escreveu a propósito dessa apreensão: «Acho a coisa tão estranha e arbitrária que não encontro palavras. De resto, para quê palavras se nelas é que está o crime?» Mais tarde, em 1955, Miguel Torga fez uma segunda edição no Brasil, com o título Contos da Montanha. A edição da Pongetti circulou clandestinamente em Portugal, assim como a 3.ª edição, de 1962. Em 1968, a obra Contos da Montanha foi de novo publicada em Coimbra, em edição do autor.
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