segunda-feira, 15 de junho de 2015

Ombro, Arma! - José Manuel Mendes

Comentário:
Esta é uma das obras mais significativas da literatura revolucionária portuguesa, se assim lhe posso chamar. Há muito que desejava preencher esta lacuna no blogue; José Manuel Mendes, um magnífico escritor bracarense, se bem que um pouco afastado dos projetores nos últimos anos, foi um marco significativo na literatura revolucionária do pós vinte e cinco de abril e esta é uma das suas obras mais importantes.
Ombro, Arma! Não é um romance de enredo muito rico nem obra de grande fôlego em termos de intriga, emoção ou riqueza de pormenores; é um pequeno romance, sintético, claro e objetivo mas, acima de tudo, com uma mensagem profunda sobre a dignidade do ser humano; uma dignidade roubada, espoliada e sobre uma condição humana subjugada aos interesses políticos de uma minoria. Por outras palavras, é um belíssimo manifesto contra a longa noite fascista.
Publicado pela primeira vez em 1978, narra a vida num quartel em plena ditadura fascista. Os soldados, subjugados, revoltados mas silenciosos, sonham com a libertação; com o fim do medo. A degradação da condição humana no aquartelamento é o tema central; os soldados são números mecanográficos e instrumentos destinados a manter o poder de alguns. Mas o monstro mais medonho é o medo; o medo da guerra. De África chegam notícias dos camaradas mortos, sacrificados por nada, ou melhor, por um sonho megalómano de um ditador ignorante e desumano. 
O amor e a literatura como escape, como compensação. As mulheres são encaradas como uma espécie de anjos, entes superiores com o condão de resgatar as almas dos terrores da vida. Os livros, por seu lado, são o refúgio indispensável mas também os mensageiros que anunciam uma mudança que será a salvação; a redenção.
Mas há um sentimento permanente de revolta e uma necessidade vital de pôr em prática essa revolta. Tudo se passa como se a revolução, que se adivinha no horizonte, fosse a razão de ser destes soldados. E tudo ganhará sentido no final do livro: em Abril.
Enfim, um livro que pode não ser empolgante mas é seguramente eficaz, numa técnica narrativa inovadora em que o narrador omnisciente “deriva” de vez em quando para um discurso na primeira pessoa que confere um aspeto mais profundo e reflexivo. Um livro importante também pela mensagem, pela chamada de atenção para a consciência da injustiça e o papel dos militares na luta política.
Vale a pena voltar a José Manuel Mendes, um escritor injustiçado pela crítica, talvez vítima das suas opções políticas.

Sinopse (in wook.pt)
«Mafra chegou ao fim, escuro exílio. Mafra, o frio de Janeiro tiritando no corpo, a humidade nas paredes, os corredores soturnos onde moram presságios e maldições. Tudo ali é fugaz, predicação de tormenta, manhãs de incerteza e sobressalto, também júbilo e azul — melodias da esperança — , mas a pedra, a abóbada dos tectos, o sombrio dos claustros, perdido o fulgor de outrora, repassam os dias de um torpor longevo. Tudo ali é breve. Mesmo que as horas pesem, a vida hiberne. Mesmo que haja instantes de cristal e levitação. Agora, ao deixar o Quartel e as suas extensões de beleza ao lusco-fusco, a acridez dos silêncios, as coisas desatam o nó dentro das vivências, que começam já a ser outras, solta-se o fio e nada resta. Nada? Os estigmas, a espessura dos constrangimentos, permanecem. E a atmosfera solidária com que defendemos a nossa humanidade ameaçada.» Este é um extracto do belo romance de José Manuel Mendes que a Caminho agora reedita.
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