quarta-feira, 17 de junho de 2015

O Hussardo - Arturo Pérez-Reverte


Comentário:
Arturo Pérez-Reverte  é um dos melhores escritores espanhóis contemporâneos. Pelo menos, é o meu preferido.
Perez-Reverte é um grande narrador de estórias de aventuras; os seus livros envolvem sempre o heroísmo, a bravura, a coragem, mas também a condição humana nas suas mais humildes e modestas facetas. Tudo se passa como se nos seus livros imperassem os opostos: a honra e a desonra, a coragem e a cobardia, o sucesso e o sofrimento. Alguns dos seus livros são profundamente reflexivos, em torno desses aspetos; outros, como este, são predominantemente narrativos, cheios de emoção.
Este é nada menos que o primeiro romance da carreira de Reverte; foi escrito em 1986 quando o autor era ainda jornalista, aos 35 anos de idade. Portanto, este livro é realmente histórico porque marcou a descoberta de um génio que de outro modo se teria perdido no jornalismo de investigação. Mesmo assim, a versão que foi traduzida para português nesta edição da ASA foi revista pelo autor e republicada em 2006.
O tema central da obra irá tornar-se uma constante no percurso literário do autor, por vezes com laivos de obsessão: o eterno conflito entre o idealismo da honra, da nobreza da guerra e a realidade dessa mesma guerra, uma realidade feita de violência e injustiça.
Na época em que Napoleão tentava dominar a Europa (inícios do século XIX) reinava em Espanha um irmão do imperador francês, José Bonaparte, obviamente imposto por Napoleão. Os espanhóis, no entanto, lutavam pelo seu rei e recusavam-se a obedecer ao francês; este invade Espanha e é dessa invasão que dá conta este livro, dando voz a um jovem hussardo (cavaleiro), Frederic, que entra no conflito cheio de vontade de honrar a Pátria, numa guerra que ele encara como forma de defender a civilização, numa perspetiva puramente romântica. Mas a realidade revelar-se-á cruel e dramática. Aquilo que Frederic encontra está longe de obedecer a essa visão romântica; o que ele encontra é o sofrimento humano elevado ao mais alto expoente; é a nobreza de quem combate por uma “Ideia” subjugada pela triste realidade da violência e de tudo quanto há de primário e primitivo.
A “civilização” de Bonaparte nada diz aos rudes e aguerridos camponeses espanhóis que defendem a sua terra com todas as forças. Aqui encontramos outro aspeto que se tornará uma constante no percurso literário de Reverte: uma perspetiva bastante crítica face à mentalidade espanhola, algo rude, violenta, numa teimosia constante que coloca o imediato à frente de qualquer ideal.

Sinopse (in wook.pt)
O primeiro romance de Arturo Pérez-Reverte, agora numa edição revista pelo autor.
Andaluzia, 1808. Numa terra assolada pelo horror da guerra, Frederic Glüntz, jovem oficial do regimento de cavalaria de Napoleão, prepara-se para a sua primeira incursão num campo de batalha. Na iminência do combate contra um exército aguerrido armado até aos dentes e disposto a morrer pela sua terra, os ensinamentos recebidos por Glüntz na escola militar parecem distantes. Rapidamente, uma realidade carregada de terror e sangue acabará por se impor, conduzindo o jovem hussardo a uma reflexão sobre a morte e o sentido da vida. Para trás ficam os seus ideais românticos de glória e heroísmo, derrotados face à crueldade da guerra.
A eterna luta entre idealismo e realismo, em que este último se impõe graças a uma das mais elementares razões humanas - a sobrevivência -, é aqui retratada em toda a sua crueza e impiedade, mas também com todo o talento e mestria a que Arturo Pérez-Reverte já nos habituou.
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