sábado, 20 de junho de 2015

Uma morte suave - Simone de Beauvoir


Comentário:
Fui, noutros tempos, admirador incondicional do existencialismo francês. Mas dessa espécie de paixão juvenil restou apenas Camus. Pelo sentimento, pela crueza do discurso mas, acima de tudo, pela inteligência.
Quanto a Simone de Beauvoir, continuo a admirar a sua sensibilidade, a defesa de causas humanitárias fundamentais mas já não tenho paciência para tanto pessimismo, tanta negatividade.
Expor aos leitores a morte da mãe e, pior que isso, o atroz sofrimento provocado por um cancro terminal, é um exercício de sofrimento para quem lê e para quem escreve. Não vejo, na minha condição de leitor amador, qualquer beneficio que se possa tirar de uma leitura como esta. 
Em vários momentos da leitura, este livro fez-me lembrar um quadro de Edvard Munch intitulado precisamente A Mãe Morta; a morte da mãe é um momento que, pelo seu dramatismo e pela carga emocional que transporta, deve ser encarado como um momento profundamente pessoal, pelo que o leitor comum não está preparado para sentir toda essa emoção. Pelo contrário, o leitor sente-se um intruso na intimidade do escritor e do seu sofrimento.
Mas é assim o pensamento existencialista (nesse aspeto este livro é paradigmático): a existência, com todos os seus dramas sobrepõe-se ao pensamento e à reflexão; é o peso do real, da impiedade do destino humano. 
Enfim, uma leitura que se aconselha para um bom conhecimento do pensamento da autora e de todo o contexto literário da época (anos sessenta do século XX) mas à qual falta aquela componente lúdica que a literatura deve envolver.


Excerto (in Wook.pt)
«Na quinta-feira dia 24 de Outubro de 1963, às quatro da tarde, encontrava-me eu em Roma, no meu quarto do Hotel Minerva; devia regressar a casa de avião no dia seguinte, e estava a arrumar uns documentos quando o telefone tocou. Bost ligava de Paris: “A sua mãe teve um acidente”, disse-me ele. Pensei: foi atropelada por um carro. Ela estava a içar-se penosamente da calçada para o passeio, apoiando-se na sua bengala, quando um carro a atropelou. “Caiu na casa de banho; fracturou o colo do fémur”, acrescentou Bost. Ele morava no mesmo prédio. Na véspera, por volta das dez da noite, enquanto subia a escada com Olga, tinham reparado em três pessoas que os precediam: uma senhora e dois agentes da polícia. “É no segundo andar e meio”, dizia a senhora. Tinha acontecido alguma coisa à Senhora de Beauvoir?. Sim, uma queda. Durante duas horas, ela tinha rastejado no chão até alcançar o telefone; tinha pedido a uma amiga, a Senhora Tardieu, para arrombar a porta. Bost e Olga tinham acompanhado o grupo até ao apartamento.»
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