quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Admirável Mundo Novo - Aldous Huxley

Comentário:
Para compreender este livro é fundamental ter em conta o momento em que foi escrito, ou melhor, o contexto da época. A obra foi publicada no ano de 1932. Trata-se de um momento histórico fulcral: nos EUA e nos países ditos capitalistas viviam-se as consequências da crise bolsista de 1929, ou seja, a grande depressão, tão bem descrita por Steinbeck em As Vinhas da Ira. Foi nessa crise terrível que desembocou o crescimento desmedido em desorganizado dos anos 20, em que pontificou Henri Ford, como exemplo máximo do alienante trabalho em cadeia, parodiado magistralmente por Charlie Chaplin em Tempos Modernos. E é precisamente Henry Ford que Huxley ressuscita como uma espécie de ser superior neste livro. Ford é o modelo sagrado.
Por outro lado 1932 é também o ano de afirmação de Hitler na Alemanha. Aí, como em Itália, na Espanha, em Portugal e na União Soviética pontificava o totalitarismo, que é o outro lado do sistema descrito por Huxley neste livro, transposto para o século XXVI.
Está assim traçado o cenário para a distopia de Huxley: uma sociedade em que os cidadãos são submetidos a um processo de estandardização, como nas fábricas Ford e, afinal, como em toda a indústria capitalista moderna, em que a liberdade é uma ameaça e, como tal, totalmente banida e em que, pela mesma razão se eliminam todos os traços de individualidade. A arte, a beleza, a cultura, são também banidos por colocarem em causa o coletivo em nome da subjetividade. O Selvagem, personagem central do livro e que representa uma “réstia” de seres humanos não condicionados, cita Shakespeare e encara o escritor como uma fonte de verdade e de beleza. O próprio título do livro, irónico, é um verso do grande dramaturgo inglês.
Tradicionalmente, este livro é considerado de ficção científica. No entanto, quando falamos deste género referimo-nos normalmente a obras que retratam um mundo tecnologicamente avançado, num futuro distante. Mas neste livro há duas diferenças em relação ao padrão: o mundo imaginado é uma distopia; o nosso mundo é visto no sentido da perda. Por outro lado, a assustadora mudança que o livro nos mostra é bem real e já neste início do século XXI podemos ver no nosso mundo sinais desta distopia, deste futuro negro que pode esperar a humanidade.
O traço distintivo mais dramático desta obra é a ausência de liberdade e a aceitação geral da ideia de que a liberdade impede o progresso. Em contraponto, advoga-se uma espécie de felicidade coletiva, controlada pelo Estado e fundada sobre o condicionamento do indivíduo. Com uma certa dose de humor, Ford é o Deus. Desta forma, Huxley estabelece a ligação entre a felicidade coletiva e o avanço tecnológico. O problema é que esse conceito de progresso só é viável basado na alienação do indivíduo. Os próprios seres humanos deixam de ser concebidos na forma natural para serem “fabricados” em verdadeiras linhas de montagem, estandardizados à maneira dos Ford dos anos 20 do século passado. Assim, condicionamento, alienação, normalização, coletivismo e submissão são as palavras-chave deste admirável/abominável mundo novo.

Em conclusão: estamos perante uma obra de génio, um clássico da literatura mundial, pela lucidez na análise do presente e do futuro da humanidade e do próprio homem: a demência é o resultado da estandardização e da alienação: o ser humano é reduzido à incapacidade de pensar e de agir de acordo com a vontade. Daí a necessidade de eliminar os sentimentos, substituídos por um prazer artificial, puramente físico, obtido com base nas máquinas e em substâncias artificiais. Obtém-se assim uma sociedade onde não há dor nem infelicidade. Mas onde se perdeu a liberdade, a capacidade de amar e, enfim, a própria humanidade.

Sinopse:
Publicado em 1932, Admirável Mundo Novo tornar-se-ia um dos mais extraordinários sucessos literários europeus das décadas seguintes. O livro descreve uma sociedade futura em que as pessoas seriam condicionadas em termos genéticos e psicológicos, a fim de se conformarem com as regras sociais dominantes. Tal sociedade dividir-se-ia em castas e desconheceria os conceitos de família e de moral. Contudo, esse mundo quase irrespirável não deixa de gerar os seus anticorpos. Bernard Marx, o protagonista, sente-se descontente com ele, em parte por ser fisicamente diferente dos restantes membros da sua casta. Então, numa espécie de reserva histórica em que algumas pessoas continuam a viver de acordo com valores e regras do passado, Bernard encontra um jovem que irá apresentar à sociedade asséptica do seu tempo, como um exemplo de outra forma de ser e de viver. Sem imaginar sequer os problemas e os conflitos que essa sua decisão provocará. Admirável Mundo Novo é um aviso, um apelo à consciência dos homens. É uma denúncia do perigo que ameaça a humanidade, se a tempo não fechar os ouvidos ao canto da sereia de uma falsa noção de progresso.
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