segunda-feira, 6 de junho de 2016

Em Busca do Tempo Perdido - vol. 4 - Sodoma e Gomorra - Marcel Proust



O título deste quarto volume – Sodoma e Gomorra – exprime com violência o assunto que atormenta o autor/narrador: no papel de narrador e personagem principal, vemos um Proust que sofre o estigma da homossexualidade, não só pela pressão da sociedade como pela própria consciência, de onde provém o maior dos castigos. Este título remete não só para o pecado como também para o castigo; não o castigo legal mas o da consciência; não é por acaso que o narrador se refere à homossexualidade como “o vício” e aos homossexuais como “os invertidos”. Obviamente, isto não exprime a opinião de Proust sobre o assunto mas sim a opinião generalizada na sociedade em que está inserido. Aliás, uma das caraterísticas desta narrativa é que o narrador nunca emite juízos de valor. Mas os personagens homossexuais, como o barão de Charlus, martirizam-se pela sua condição de “homem-mulher”. No entanto, eles são muitos e por vezes escondem-se no meio da sociedade. Esta é uma das mensagens que Proust quer transmitir: os homossexuais não são casos isolados e excecionais.
O Sr. de Charlus é o principal personagem homossexual e é notável a forma como Proust constrói e carateriza este fortíssimo personagem; ele revela uma dupla personalidade que se justifica pela sua dupla condição: o homem social mulherengo, socialmente bom sucedido como bon-vivant e por outro lado o “homem mulher” escondido, que só se revela aos seus pares. Esta dualidade justifica também o seu caráter dúplice: simpático e altruísta mas por vezes terrivelmente irascível e profundamente preconceituoso, por exemplo em relação aos judeus.
A ascendência judaica de Proust explica, talvez, a forte presença do tema nestes romances; o caso Dreyfus, em voga na época, bem como o consequente antissemitismo continuam na ordem do dia neste volume. A opinião sobre o assunto na alta aristocracia depende menos da eventual culpabilidade de Dreyfus do que do preconceito – ser a favor de Dreyfus é imoral; é uma tomada de posição contra a sociedade. Aqui, tal como na questão dos homossexuais, em vez de emitir uma opinião, o autor dá voz aos que dele discordam (anti homossexuais e antissemitas) deixando que eles próprios revelem a falibilidade dos seus argumentos.
No seu papel de heterossexual o narrador faz renascer o seu fascínio por Albertina. Os seus delírios, os seus dilemas interiores, as suas hesitações, a sua insegurança quase crónica, são elementos que fornecem à prosa de Proust momentos sublimes, principalmente nos últimos capítulos do livro; é genial, notável, brilhante, a forma como Proust nos descreve a mente e os sentimentos inseguros do narrador, de tal forma que para o leitor se torna quase natural que o narrador diga que é imprescindível cortar relações com Albertina para meia dúzia de páginas depois, no final do romance, concluir que é imprescindível casar-se com ela.
Nos momentos que passa sozinho, as longas reflexões do narrador debruçam-se muitas vezes sobre o tema do devir e do passado, como que justificando o título da obra; de como o tempo condiciona a vida; de como nos deixamos encaminhar por situações que relativizam o tempo – porque o “aceleram” quando o prazer impera e porque o “atrasam” quando a sorte não sorri ao nosso destino. Um outro aspeto curioso neste quarto volume é a introdução na narrativa de um certo sentido de humor, principalmente nas descrições da vida social dos salões, onde as famílias rivalizam entre si, criando situações e diálogos bastante caricatos.
Enfim, este quarto volume é até agora aquele que mais me deleitou pela objetividade da escrita acompanhada por uma notável profundidade dos assuntos tratados, convidando sempre à reflexão.

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