domingo, 20 de novembro de 2005

A Curva do Rio - Vidiadhar Naipaul

Trata-se de uma das mais lúcidas leituras do processo de descolonização africana. Algures num país da África Central, emerge um regime ditatorial, na sequência do caos provocado pela descolonização. Um líder apodado de “Grande Chefe”, defendendo ideias pseudo-marxistas, assume-se como o garante da felicidade africana mas mais não consegue do que colocar o país em estado de guerra permanente, conduzindo à desgraça e à pobreza extrema. O Grande Chefe, sem nome, faz lembrar o senhor do Castelo de Kafka – a distância garante o respeito e o medo. Os retratos do Chefe, espalhados por todo o lado, realçam o mito. Salim, um indiano, procurava a fortuna em África. Mas é aprisionado na teia de dos conflitos que emergem. A vida dos emigrantes asiáticos é esmagada pelo conflito. Emerge um choque cultural tripartido: africano, europeu e asiático. A cultura e os costumes europeus, mau grado a descolonização, permanecem como modelos que, consciente ou inconscientemente conduzem os africanos. “A África, retornando aos seus velhos hábitos com meios modernos, seria um continente difícil durante algum tempo”. Ao mesmo tempo, a pobreza e a ignorância são campos férteis para a emergência de um regime autocrático e violento. Surge a guerra civil. No meio de tudo isto, o ser individual perde-se. A vida de Salim é um processo constante e desesperado de procura da identidade perdida. O ser individual devastado em nome de “ideais”. Só no interior de si encontra algo de concreto: quando se apaixona por Yvette, Salim vê o seu mundo reduzir-se; “e quanto mais reduzido se tornava o seu mundo, mais obsessivamente eu vivia nele”.
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