quinta-feira, 14 de julho de 2011

O Demónio Branco - Lev Tolstoi

Este é um dos últimos livros escritos pelo grande mestre russo. Não sendo uma obra de grande fôlego, é um documento fundamental para compreender as ideias de Tolstoi. Trata-se, a meu ver, de um testemunho claro do seu pacifismo, do seu espírito crítico em relação ao poder político e, para usar o termo aplicado com a-propósito pelo tradutor desta edição, António Sérgio, um verdadeiro “apóstolo” da não violência e da conciliação entre os povos.
O enredo passa-se no Cáucaso (território do Império Russo situado entre os mares Cáspio e Negro), na década de 40 do século XIX. Narra-se a vida de Hadji-Murat, um guerrilheiro tártaro muçulmano, desiludido tanto com os Russos, imperialistas e violentos, como com os tártaros, que o desprezaram e lhe aprisionaram a família. No meio deste conflito, o povo Checheno, brutalmente esmagado pelo czar russo, ansioso por submeter a já na altura martirizada região do Cáucaso. Anteriormente submetido aos tártaros do Império mongol, este povo é vítima quer do conflito político quer da guerra religiosa, entre a religião muçulmana à qual os tártaros se haviam convertido a religião cristã ortodoxa dos russos.
Alvo especial da crítica de Tolstoi é o imperador Nicolau I. Note-se que Tolstoi foi soldado russo durante o governo deste czar, pelo que é nítida a influência neste livro das próprias vivencias deste escritor. Aqui, Nicolau I é apresentado como um tirano absolutista, muito sensível à lisonja que lhe alimentava a vaidade, incapaz de conter a corrupção, com um medo permanente de ser traído, que o tornava impiedoso e… mulherengo. Este retrato, infelizmente, corresponde à verdade histórica. Nicolau I, se bem que testemunhasse uma fase de alguma industrialização da Rússia, foi um rei leviano, brutal e que protegeu as elites mais poderosas (mais por medo do que por estratégia).
Este livro, em algumas fases, lê-se com alguma dificuldade devido por vezes a uma necessidade que se adivinha em Tolstoi de contar a estória em poucas páginas. No entanto, resulta dele um retrato fiel da velha Rússia czarista e, acima de tudo, um testemunho do humanismo e do espírito crítico de Leon Tolstoi. Não deixa, no entanto, de ser uma obra menor se a compararmos com o brilhantismo de Anna Karenina, a monumentalidade de Guerra e Paz ou até a singeleza dessa pequena maravilha que é A Morte de Ivan Ilich.
Avaliação pessoal: 8.5/10
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