quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Mia Couto - Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra



Mais um livro em que Mia Couto transporta para a criação literária as marcas do período colonial e pós-colonial; a dor de um povo, ou de uma Terra (que é povo e tudo o mais), na escrita de um poeta sem rimas mas que faz escorrer o sangue da sua gente no papel da ficção. Terra e rio, gente, suor e lágrimas, termos de uma equação insolúvel, equivalente à vida. Escrita poética, escrita sofrida, mas também corajosa e sentida. Palavras que afluem do peito, frases inventadas pelo coração.

Ler este livro é fácil e divertido. A estória contada diverte e embala. Mas Mia Couto permite-nos algo mais que ler: a sentir o livro; deixarmo-nos conduzir pela alma de uma gente que um dia foi escrava para depois se escravizar; e sentimos que a dor da gente é uma dor que não tem fim; como a vida de Mariano, o defunto.

O estudante universitário Mariano volta à sua terra natal para o funeral do avô. Enquanto aguarda pela cerimónia é testemunha de estranhas visitas na forma de pessoas e de cartas que lhe chegam do outro lado do mundo. São revelações de um universo dominado por uma espiritualidade que ele vai reaprendendo. À medida que se apercebe desse universo frágil e ameaçado, ele redescobre uma outra história para a sua própria vida e para a da sua terra.

Luar do Chão (terra inventada mas real do Moçambique pós colonial mas onde a esperança morria) é terra de gente pobre. Terra sofrida, desfeita pelas ambições e promessas de quem, afinal, não trouxe o paraíso à terra.

No entanto, no meio da desilusão, dos sonhos assassinados, Mariano reencontra-se consigo mesmo em Luar do Chão; é a terra que traz consigo a identidade, o ser profundo de Mariano; é no meio do fantástico, do surreal que faz parte da vida, do misticismo de um povo que há-de sempre acreditar numa qualquer redenção, é aí mesmo que Mariano redescobre a esperança.

Um dos aspectos mais maravilhosos da escrita de Mia Couto é a síntese perfeita entre a leveza de um estilo que encanta pela simplicidade, fruto de um povo simples e puro e a profundidade filosófica da sua narrativa. Este livro é um convite à reflexão sobre muitos dos temas que continuam a conturbar o nosso mundo: a avidez dos lucros, a voragem capitalista sobre, afinal de contas, a terra-mãe, mas também o sentido da vida e da morte: o avô Mariano é o morto que se recusa a morrer; o defunto de obra inacabada que contempla o céu no seu leito de morte num quarto sem tecto. À sua volta deambulam personagens que encerram os grandes dilemas e sofrimentos da vida.

A terra, a mãe, contempla-os e determina os seus destinos.

Um livro apaixonante que é também um convite à transcendência; o homem não é só miséria ou lucro, sofrimento ou alegria; é um mundo inteiro de crenças, medos e paixões. A Terra não é só o lugar de onde cresce a alimento; a Terra é a imperatriz da vida; daí que ela se recuse a receber o corpo do avô Mariano enquanto a paz e a verdade não regressa à casa. A casa, por seu turno, é o centro da vida; as mulheres que a habitam são as mensageiras da paz e da felicidade de todos.

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