terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Frankenstein - Mary Shelley

A história é contada através de quatro cartas dirigidas por R. Walton a sua irmã. Walton encontra-se numa expedição nos mares gelados no Norte. É um corajoso aventureiro mas, acima de tudo, uma pessoa de carácter profundamente humano que encontra em Victor Frankenstein, o viajante perdido no gelo, um amigo que com ele partilhará a sua incrível história.
É nas cartas à irmã que Walton revela toda a desventura daquele cientista, desesperado por reencontrar nos gelos do Norte o monstro que criara.
Desde cedo, Victor é atraído pelo conhecimento do corpo humano, encantado pelas maravilhas da ciência moderna, própria da época em que o livro é escrito (inícios do séc. XIX). Na verdade, é uma época de triunfo da ciência e da tecnologia; a era da tecnologia do vapor, fruto da Revolução Industrial. Ao nível da química e das ciências naturais, vivia-se uma fase de intenso progresso, na sequência da afirmação do método experimental, com as descobertas de Newton e aos estudos de Lavoisier que deram a conhecer, por exemplo, a composição do ar e da água.
É essa nova atmosfera que leva Frankenstein às suas incríveis experiências, conseguindo dar vida a um ser feito de pedaços de cadáveres que recolhia nos cemitérios. Victor demonstra uma certa “personalidade dupla”, levando-o a assumir um “lado negro”, que o impele para as suas terríveis descobertas, em confronto com o seu lado humano, sentimental, profundamente ligado à família e à sua grande paixão, Elisabeth. Neste sentido, a ciência é vista como uma espécie de fatalidade, como se Victor fosse vítima da própria ciência e não o seu construtor. Quando Victor descobre o segredo da geração da vida, esse saber é visto como perigoso, como se constituísse uma espécie de condenação. Victor será assim a vítima da sua ciência.
Curioso o facto de o título original da obra ser “Frankenstein or the Modern Prometeus”. Prometeu teve uma condenação perpétua porque roubou o fogo aos Deuses para dar superioridade aos homens. Foi vítima da sua inteligência. Como Frankenstein.
Mas a grande surpresa desta obra reside na visão que a autora nos dá do “mostro”. Antes de ser corrompido pela “humanidade”, ele revela um carácter puro e bom. Nos seus primeiros contactos com o mundo, aprende em primeiro lugar a sentir a beleza e o amor. Os primeiros seres humanos que encontra depressa se transformam na sua “família” e chega a ser enternecedor o amor que começa a sentir por eles. Nesta fase, a descrição do “monstro” parece corresponder à imagem do “bom selvagem”, divulgada em França por Jean-Jacques Rousseau, cerca de 50 anos antes da publicação desta obra. Curiosamente, Rousseau era natural de Genebra, tal como Frankenstein (coincidência apenas? Não me parece). Tal como acontece na teoria de Rousseau, o “monstro” nasce naturalmente bom. É a sociedade que o corrompe.
De facto, a ausência de sentimentos negativos só se mantém até ele iniciar o convívio com os seres humanos. Aí, ele aprende a odiar; descobre a maldade. Da mesma forma que Victor encontrara a infelicidade ao adquirir conhecimento cientifico, a sua criatura torna-se infeliz quando adquire o conhecimento do ser humano. Quando este contacto se inicia, o próprio aspecto físico, aos olhos dos humanos, é suficiente para desvalorizar por completo toda a sua bondade natural. Nessa altura como hoje, na ficção como na realidade: a imagem prevalece sobre o ser e o sentir. Ser “feio” é desde logo infinitamente mais significativo do que ser “bom”.
Os homens ensinaram o monstro a praticar o mal; a partir daqui entra-se na espiral do ódio, alimentado por um verdadeiro monstro, o preconceito: socialmente, a criatura é uma aberração. Também vítima do preconceito, Victor revela-se insensível, incapaz de compreender o sofrimento da criatura; responde ao ódio com o ódio e a violência acentua-se. A vontade de vingança de Victor acentua a mesma vontade no monstro. O ódio destrói. Afinal de contas, o ódio é uma característica humana. Desgraçadamente humana.
Em conclusão: a criatura é um monstro odioso e admirável; selvagem mas humano; que odeia e que ama. Como os homens. Como todos nós. No entanto, é na pureza dos sentimentos humanos que se encontra a paz e a felicidade; no coração mais que na inteligência.



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