segunda-feira, 7 de maio de 2012

A Fenda - Doris Lessing


A Fenda é um livro profundo e complexo. Mais do que uma narrativa, é uma reflexão sobre a importância das relações entre homens e mulheres na origem e evolução da humanidade.
O enredo é narrado por um aristocrata romano do tempo de Nero.
A visão feminista de Lessing, de uma forma muito inteligente, começa por fazer uma ligação clara entre a mulher e a terra: a Fenda é uma referência à anatomia feminina mas também a um acidente geográfico do local onde vivia a comunidade: uma fenda sagrada, onde eram executados sacrifícios sagrados.
Uma comunidade primitiva, estranhamente composta apenas por mulheres dava à luz sem intervenção masculina. Todos os bebés assim gerados eram do sexo feminino. Até que um dia acontece o impensável: nasce um rapaz. Ou melhor, um Monstro, como lhe chamaram, devido a certas protuberâncias anatómicas que exibia. Essa anatomia levou a que os Monstros fossem também conhecidos pelos Esguichos. Estava quebrado o equilíbrio. Em breve se gerou uma nova comunidade, só de Esguichos e começa a odisseia das relações entre os dois grupos; uma relação que evoluirá entre o encantamento e a “guerra dos sexos”.
Esta visão mais ou menos histórica da origem da humanidade levar-nos-ia, pela lógica das cronologias, ao Paleolítico; no entanto, todas as pistas que Lessing nos deixa sobre essa cronologia, levam o leitor a situar o enredo nos primórdios da civilização grega. De facto, muitas das realidades descritas têm como referentes claros alguns aspetos da mitologia grega. Por exemplo:
- a época em que só as mulheres (Fendas) representavam a espécie humana é vista como uma espécie de “Idade do Ouro” primordial.
- as águias são encarregadas de transportar os rapazes para a comunidade masculina, logo que nasciam das Fendas. Este papel vai-se tornando, ao longo do livro, o de justiceiras, apelando sem dúvida para a águia do mito de Prometeu.
- A comunidade feminina faz lembrar o episódio da fuga para a ilha de Lesbos por parte das mulheres de Atenas.
- Os sacrifícios rituais e a morte dos bebés rapazes praticada pelas Fendas tradicionalistas faz referência à tradição de infanticídio nalgumas comunidades gregas primitivas, sendo a de Esparta a mais conhecida.
Globalmente, parece nítida a visão feminista desta obra. Pessoalmente, penso que Lessing vai muito além disso. O bucolismo e a ausência de um conceito de moral à maneira romana ou judaico-cristã colocam esta comunidade primitiva sob uma moral natural que contrasta claramente com o mundo vivenciado pelo narrador, um Romano que, ainda assim, considera a sua sociedade como “devassa”. Quer dizer, Lessing parece encarar a história da humanidade como um caminho desde essa moral natural até às formas mais modernas de moralismo.
As “Velhas Elas”, conservadoras, têm nessa comunidade um papel fundamental como elemento conservador da sociedade; no entanto o seu poder é claramente posto em causa pelas mulheres jovens e as relações mais abertas com a comunidade masculina acabam por triunfar.
Por outro lado, temos a importante questão do poder: depois de se tornar real a união entre as comunidades de homens e mulheres, o primeiro líder é um homem. E todos, incluindo as mulheres, aceitam o seu poder de uma forma natural. No entanto, por mais poder que esse homem tenha, ele vive atormentado por uma dúvida permanente: “o que vai ela pensar disto?”
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