quinta-feira, 17 de maio de 2012

A Queda - Albert Camus



Imagine-se sentado num café noturno, em Amesterdão. Um conterrâneo seu senta-se a seu lado e desata a falar. Fala, fala, fala… um longo monólogo. É esta a técnica narrativa de Camus neste romance. Um advogado, auto intitulado “juiz-penitente”, Jean-Baptiste Clamance é o único que fala. O outro, que nós nunca conhecemos limita-se a ouvir e desempenha o mesmo papel que o leitor: um ouvinte e nada mais.
Todo o discurso é tenso, por vezes divertido, outras vezes revoltado, mas sempre sentido e refletido. É um livro difícil, confesso; nem sempre é fácil ao leitor descobrir as ideias que Camus pretende transmitir. No entanto, algumas dessas ideias são suficientemente claras para que as possa inserir neste comentário:
Clamance é um hedonista; ele sobrevaloriza-se; considera-se um exemplar quase perfeito da humanidade. Chega mesmo a irritar o leitor, fazendo crer que toda a humanidade é má, é odiosa mas a sua pessoa é superior a tudo isso. Prepotente, Clamance/ Camus transforma o seu discurso uma verdadeira ofensa ao leitor que, como que manietado, se sente obrigado, apenas e só a continuar a ouvir / ler as sentenças superiores de Clamance.
Mas a parte final do livro, após “A Queda”, marca uma reviravolta que se torna algo dramática: é o reconhecimento do fracasso da solidariedade. E isto dói porque nos revemos em Clamance, o homem que ouviu o grito da mulher que caia mas nada fez porque fazia frio e chovia. Será esta a essência da humanidade? É esta, pelo menos, a essência de Clamance, em contraste com o homem brilhante com que se apresenta na primeira parte da obra.
Assim, as qualidades humanas enunciadas na primeira parte de nada velam; todos os valores morais não parecem ser mais do que motivos de vaidade. É a descrença total no ser humano…
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