quinta-feira, 24 de maio de 2012

O que o dia deve à noite - Yasmina Khadra



É um livro muito interessante; estamos perante uma daquelas obras que classificamos como muito boas mas que não ficam muito longe da linha que demarca a genialidade.
Tudo parte de uma aliança bem conseguida entre a realidade e a ficção; por outras palavras, entre a História e a Fantasia.
Estamos na terra de Camus: a Argélia colonial, ocupada pela França até 1962. O enredo acompanha o tempo de vida de um argelino de origem árabe nascido em 1927 e, portanto, ator e personagem dos dois grandes conflitos que marcaram esse martirizado país do Norte de África: a segunda guerra mundial, com a ocupação nazi e a guerra da independência. Younes (Jonas para os colonialistas e não-árabes em geral) é um jovem nascido na miséria que, depois de ser educado por um tio, consegue entrar no círculo social da elite colonial. Younes coloca-se assim entre dois mundos em conflito permanente e tudo se encaminha para o grande drama: o momento em que ele terá de tomar partido. Por um lado a voz do sangue: da comunidade árabe injustiçada e quase escravizada; por outro lado, a voz do progresso e da riqueza. Pelo meio, os amores de Younes, sempre marcados pela guerra, tanto a guerra politica como as diversas guerras sociais e étnicas que trespassavam aquele país.
A escrita de Khadra é, acima de tudo, de uma sensibilidade extraordinária. Ele escreve com uma delicadeza que nos comove com facilidade. É quase com ternura que o autor nos fala da voz da terra e do sangue que Younes ouve constantemente; e a voz da honra: Isra, o pai de Younes prefere a miséria à desonra de aceitar ajuda do irmão rico. Esta impossibilidade de saír da miséria sem perda da honra dá a todo o enredo um tom cinzento, sombrio, triste… belo mas triste.
Para estes árabes da Argélia, o mais difícil era arranjar uma razão para sobreviver… no entanto, no meio da miséria, há sempre algo a que um homem se agarra para ser feliz. Nem que seja uma canção ou um poema…
Por vezes, a escrita de Khadra assume tons verdadeiramente poéticos, tanto na forma como nas mensagens que transmite. Para além disso é um intenso grito contra a prepotência política que justificou o colonialismo; contra esta escravatura moderna que justifica a dominação com uma pretensa e ridícula superioridade civilizacional.
Um aspeto interessante é a forma como o autor demonstra a crescente atração do personagem principal pela violência, ele que era um profundo pacifista. De facto, perante determinados níveis de injustiça, a violência começa a encontrar justificações…
Em conclusão, penso tratar-se de um livro que merecia maior divulgação, de um autor que surpreende pela criatividade literária, com marcada influência de Albert Camus: em muitos aspetos , este Younes faz lembrar Mersault, de O Estrangeiro, principalmente pela sua personalidade algo difusa e incontornavelmente desenquadrado do meio em que vive…

7 comentários:

Paula disse...

Olá Manuel,
Gostei muito do teu comentário, esclareci algumas dúvidas que me ficaram a nível histórico :)
Para além de toda a História que gostei de ler aqui (e que aprendi sobre a Argélia), o que muito me comoveu nesse livro foi a bela história de amor :D O sacrifício do amor em prol da amizade da palavra dada. Um autor a reter para a leitura de outras obras.

Iceman disse...

Olá Manuel!
Muito boa opinião de um livro que, como sabes, adorei!
Curioso, na Feira do Livro o livro esteve sempre em evidência no stand. Das várias vezes que lá fui, meti sempre conversa com os colaboradores e o livro esteve sempre a 6€. Preço brutal!
Agora ando na persuigação da, considerada, sua melhor obra que, segundo a editora, está esgotadíssima: As Andorinhas de Cabul.

Manuel Cardoso disse...

Pois é, Paula, esqueci-me de comentar esse aspecto: este livro é também uma bela história de amor. No entanto, achei aquele silêncio do protagonista algo perturbador. Até que ponto manter um segredo não é um acto de cobardia? Ele podia ter evitado a desgraça dela se não fosse tão fiel ao segredo que mantinha em relação ao passado...

Iceman, este livro por 6 euros é mesmo um achado! Vou também tentar saber dessa outra obra do autor.

Dirce disse...

Adquiri esse livro devido ao título: " O que o dia deve à noite" - simplesmente apaixonante.
Apaixonante também é o livro além de muito enriquecedor.
Confesso que tudo que eu sabia sobre a Argélia é que ficava no Continente Africano, o que me levou, no decorrer da leitura, fazer algumas pesquisas.
Entretanto, apesar de ter feito uma leitura prazerosa, cheguei ao final do livro, um tanto quanto frustrada, pois não consegui entender o sentido do Título.
Em busca de um entendimento para o título, cheguei a esse seu Blog, Manuel. Parabéns! É ótimo.
Você encontrou algo no livro que justifique o título? Qual foi o seu entendimento?
Obrigada, e me desculpe a invasão.
Ah! estou lhe escrevendo do Brasil - além mar.

Rita Gonçalves disse...

Boa tarde!
Um dos melhores livros que li. Amei.
O Atentado, As Andorinhas de Cabul e as Sirenas de Bagda também são bons. Recomendo!

Rita Gonçalves disse...

Boa tarde!
Um dos melhores livros que li. Amei.
O Atentado, As Andorinhas de Cabul e as Sirenas de Bagda também são bons. Recomendo!

Manuel Cardoso disse...

Olá Rita
obrigado pela sugestão.
Realmente, devo voltar a esta autora, que bem merece.