quinta-feira, 18 de julho de 2013

A Lua e as Fogueiras - Cesare Pavese




Sinopse:
Publicado originalmente em 1950, A lua e as fogueiras é o último e mais bonito romance de Cesare Pavese. Neste romance, o personagem central retorna rico à cidade de Santo Stefano Belbo, de onde partiu ainda jovem para "fazer a América", pretendendo usufruir uma vida abastada. Não é mais o rapaz obrigado a trabalhar nos campos, mas um homem maduro que agora pode ser um patrão. Numa paisagem em que, aparentemente, nada mudou, encontra tudo transformado.
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Comentário:
Uma enorme surpresa, este livro. Depois da deceção que foi a leitura de Andrea Camilleri, encontrei neste Cesare Pavese algo completamente diferente.
 Quando um homem não conhece as suas raízes tudo perde o sentido. Enguia, o protagonista, é um bastardo que nunca conheceu os pais. Enriqueceu mas o apelo da terra foi, no entanto, maior. Mas as raízes perdidas, essas, nunca mais as encontrará…
Uma escrita profunda, sentida, poética, cheia de sentimento e emoção. O próprio título, A Lua e as Fogueiras, encerra um simbolismo tremendo, numa alusão ao universo rural e místico da Itália dos tempos da ditadura fascista e das fogueiras da guerra que assolaram o nosso continente em meados do século. A Lua, no seu esplendor místico, parece iluminar uma escuridão que se entranha no espírito dos homens e da qual o próprio Pavese foi vítima pois acabou por se suicidar poucos meses depois de ter terminado a escrita deste livro.
A solidão de um bastardo no meio do mundo. “Enguia” regressa à sua terra e, depois da solidão da América que o acolheu e onde enriqueceu, apenas encontra as cinzas das fogueiras; nem memórias vivas, apenas fantasmas… Nuto, o amigo é o que resta da guerra e da miséria. De resto, é a tristeza do presente, os ódios do passado, o medo do futuro e a pobreza de sempre.
Mas a agente simples não é mais infeliz que ele, que enriquecera. A miséria é também enganada pela alegria de quem nada tem a perder nem a ganhar. As festas, as desgraças, a música, a morte... Tudo é vida, mesmo sem futuro.
Enfim, uma imensa poesia sobre a vida real.
Uma obra-prima!
 

3 comentários:

C. disse...

quando penso neste livro penso na terra, nos seus odores, do que nela habita, nas pessoas, nas suas perspectivas e modo de ser face à realidade.
não o senti uma obra-prima, mas à luz do acumular das leituras, creio que este livro encerra qualquer coisa como as sensações que constituem a memória, e a verdade é que nem sempre os momentos da leitura conseguem ver longe, é preciso algum tempo e confronto com outros textos e ideias.
De Pavese está na lista(a tal que não acaba) "O Ofício de Viver"- já o fui abrindo e lendo a espaços e é de uma beleza e violência que senti como insustentável (parvoíces, bem sei).
Boas Leituras :)

Manuel Cardoso disse...

Caro C., eu confesso que sou bastante emotivo; já devo ter atribuído o título de "obra-prima" a umas centenas de livros :):):) No calor do final de uma boa leitura, tenho tendência a exagerar um bocado. E o facto de o homem se ter suicidado depois de escrever o livro também me influenciou um bocado...
mas que é um grande livro, lá isso é...

Ana Margarida Martins disse...

Aprecio Pavese, a sua escrita toca-me bem fundo na minha alma. O primeiro sentimento que ocorre quando relembro a leitura desta obra é: saudosismo, na medida em que o narrador apela às memórias de infância, às suas origens.
Césare Pavese mantém um pensamento filosófico da vida, traço que lhe é caraterístico.
As relações familiares, laços de amizade que marcam e perduram ao longo da vida, são determinantes na narrativa.
Destino... O que é?Premeditação...?
Constrangimento social e a necessidade de afirmação através da demonstração de riqueza.
Concordo na plenitude com a classificação atribuída.
Sejam muito felizes "dentro" dos livros!!!!!!