sábado, 2 de novembro de 2013

A Feira dos Assombrados - José Eduardo Agualusa


Sinopse
Publicada pela primeira vez em 1992, A Feira Dos Assombrados, tem como cenário a velha cidade do Dondo, às margens do Rio Quanza, em Angola, nos últimos dias do século XIX. Tudo começa com a descoberta de um misterioso cadáver: O primeiro corpo que o rio trouxe ainda nos pareceu humano. Tinha as partes todas de que somos compostos, a pele lisa e sem escamas, como a nossa, e os enormes olhos abertos guardavam até um resto de luz e de calor. A partir desta descoberta, o Dondo, lugar inteiramente apartado do mundo, vai mergulhar num estranho pesadelo. Uma alegoria sobre a presente situação política e social de Angola.

Comentário
É uma limitação minha, reconheço, a pouca apetência para ler e gostar de contos. Talvez por esse motivo, esta foi a obra de Agualusa que menos me entusiasmou.
Estas estórias parecem-me algo insipidas quando comparadas com os livros de maior folego deste grande escritor angolano. Seja como for, não deixam de marcar presença os mais significativos traços da sua escrita: a fantasia, a ingenuidade do falar do povo, a poesia da linguagem falada, naquela mescla sui generis do português com a voz da terra africana. Por exemplo: (o boato) “ faz acontecer; dá acontecência ao insucedido.” Repare-se na forma simples, sintética, como se alia a musicalidade da língua à verdade ingénua e, ao mesmo tempo, profunda da sabedoria popular.
No conto principal, que dá título ao livro, Agualusa faz entrar em cena a sua paixão pela história de Angola, nomeadamente pelo período final do século XIX. Aí se cimentou a presença portuguesa na ocupação da terra angolana. E é de uma forma crua, quase brutal que Agualusa nos transmite a imagem do colonizador:
Os ratos não tardaram a fugir, transferindo-se para o norte com as suas veneradas doenças de ofício, as suas balanças viciadas, as suas quinquilharias baratas, o seu vinho triste, os seus ferros de educar gentio. E por ratos quero dizer os comerciantes portugueses, quase todos antigos degredados, a medrosa cáfila de pequenos artífices e as inevitáveis putas, ávidas aves que vêm e que voam…” É a tristeza nua e crua da verdade histórica, de uma nação brutalmente colonizada e espoliada.
Nesse conto, o mais extenso, na típica mescla de fantasia e realismo que carateriza este autor, dá-se conta do aparecimento de uma série de misteriosos cadáveres, trazidos por um rio, o Quanza. Simbolicamente, o primeiro cadáver surge no dia 31 de janeiro, o dia em que a monarquia portuguesa foi pela primeira vez abalada. Sobreviveu, no entanto, como sobreviveria a miséria moral do colonizador, assim como a terra sedenta de liberdade.
Na verdade, este conto destaca-se dos restantes não só pela sua extensão mas principalmente pelo simbolismo do seu conteúdo; os cadáveres trazidos pelo rio são as oferendas negras de uma realidade externa que fez Angola mergulhar no terror, no medo, na tristeza.

Mau grado toda a poesia desta escrita e todo este simbolismo, o leitor fica algo dececionado; de Agualusa espera-se sempre um pouco mais.

4 comentários:

Carlos Faria disse...

Pelo menos gosto muito de contos, não conheço o livro, prefiro bons contos a um mau romance, mas sem complexo também maus contos me desiludem.
Como não conheço o livro, não me posso pronunciar, mas do que já li tenho perspetivas altas com Agualusa, pelo que compreendo que é mais fácil a desilusão assim.

Kézia Lôbo disse...

Contos também são complicados pra mim, eu gosto, mas nem todos me agradam.... mas apesar de vc não ter se empolgado tanto, me deu uma certa curiosidade.

Manuel Cardoso disse...

Mesmo assim, Carlos, continuo a considerar Agualusa um escritor genial.
Bem vinda, Kézia. O que me dececiona nos contos é, na maior parte das vezes, saberem a pouco...

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