sábado, 1 de novembro de 2014

Ocaso das Letras - Pedro de Sá


Comentário:
Nesta publicação da Chiado Editora, este livro vem classificado como “de crónicas”. Custa-me um pouco encará-lo dessa forma; na minha opinião este é um livro de reflexões; um livro de pensamentos e emoções, sentimentos ou apenas emoções dispersas. Ou seja, um livro feito de todos aqueles pensamentos e emoções que compõem a nossa vida. Quase em forma de diário, Pedro de Sá, que já nos impressionara com as suas obras anteriores, oferece-nos um autêntico passeio pela intensa atividade interior que a vida desperta num ser humano sensível aos fenómenos, pequenos e grandes, que o rodeiam.
O maior problema dos livros ditos “de crónicas” é não seguirem aquela linha contínua que desperta e mantém o interesse do leitor, ou seja, uma narrativa; o formato de textos curtos tendem a espartilhar o enredo. Mas se o livro de Pedro de Sá corre, dessa forma, o risco de ser considerado menos apelativo, ele revela, por outro lado, fortes motivos de interesse. Antes de mais, é clara na escrita do autor uma certa procura do sentido da vida; isto pode parecer abstrato, mas o realismo da escrita torna essa procura algo de bem objetivo: esse sentido da vida parece situar-se algures entre dois extremos: o banal quotidiano e uma intensa vida interior. Do gesto mais banal ao pensamento mais elaborado, este livro é uma viagem entre esses dois polos. Afinal, dentro de um ser humano há sempre dois mundos – um objetivo, concreto, e outro feito de pensamentos e sonhos. É dentro desta última esfera que a escrita de Pedro de Sá se move, mas sem que este mundo interior alguma vez se liberte desse outro polo, o concreto. A questão que parece restar é esta: a qual desses dois mundos nos escravizamos? Ou aos dois?
À medida que avançamos no livro, algo vai surgindo, lentamente, como um verdadeiro monstro emergindo de águas profundas: o tempo. Um tempo que é passado, sob a forma de memórias de infância ou de sonhos perdidos, outras vezes tomando forma de saudade – “o passado a nascer-lhe” (pág. 85) é a força da memória, o peso das recordações, o labirinto da saudade. A saudade, uma espécie de dor que fica a meio passo da morte; passado e futuro unidos por uma dor de existir que é única e fatal. Este tom sombrio, de poesia dolorida, faz deste livro uma espécie de catarse da dor; um ocaso que não é só das letras – é da vida.
Enfim, uma obra que merece ser lida, a fazer lembrar Vergílio Ferreira na interioridade da prosa poética ou António Lobo Antunes num intenso  mergulho interior.



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