quarta-feira, 5 de novembro de 2014

O Último Adeus - Li Marta


Comentário:
Ora aqui está uma bela surpresa que o Clube de Leitura Bertrand de Braga me proporcionou: um livro despretensioso, numa escrita límpida e agradável, que se lê de forma apaixonada e intensa. E uma situação que já se repete, infelizmente, amiúde no panorama literário português: nenhum livro  é divulgado em conformidade com a qualidade que revela; todos sabemos que há desígnios insondáveis nas prioridades das editoras...
Li Marta escreveu um livro sobre a família; sobre os amores da mãe e da avó materna; uma bela história, sem dúvida. E esse tom autobiográfico reforça ainda mais o carácter intimista e, ao mesmo tempo, tremendamente verossímil da obra. Quem lê fica com a impressão clara que é com toda a lógica e com toda a naturalidade que as coisas tenham ocorrido assim. Por outras palavras; trata-se de uma história perfeitamente plausível sobre uma família pobre em plena ditadura de Salazar.
As descrições das épocas retratadas são fiéis à realidade histórica e o realismo da escrita deixo-nos bem clara a imagem do país real nos segundo e terceiro quartel do século, num bom testemunho histórico das condições de vida dos mais pobres nesse contexto: a ingénua religiosidade popular, os costumes, a humildade de quem nada tem e, por outro lado, o peso dos preconceitos, do julgamento da tantas vezes impiedosa e ilógica moral pública.
Apenas um reparo: por vezes a falta de experiência da autora leva-a a atribuir discursos algo elaborados para personagens humildes, com reduzida ou nenhuma escolaridade.
Na aba do livro, a autora confessa, com toda a simplicidade a sua admiração por escritores que não são propriamente génios literários: Danielle Steel, Nora Roberts e Nicholas Sparks. No entanto não foram esses escritores que eu "li" na escrita de Li Marta; o que aqui redescobri foi um novo Júlio Dinis, principalmente naquela simplicidade romântica, naquele bucolismo colorido e, acima de tudo, naquela bondade natural do ser humano. Na verdade, a autora, ao construir todos os personagens, revela uma belíssima crença na bondade natural do ser humano; mesmo na maior miséria, na fome a que o regime de Salazar condenou aquelas ingénuas e puras gentes, há sempre um raio de sol e de esperança. Esta beleza interior da maioria dos personagens, confesso, enterneceu-me e talvez este comentário não esteja a ser suficientemente comandado por uma avaliação "técnica" da obra mas pelos belos sentimentos e pelo prazer de ler que me ofereceu. Mas, ao fim e ao cabo, o que é que procuramos num livro senão a paz, a beleza e o prazer?
É que é isso mesmo que este livro nos oferece: uma paisagem humana cheia de paz, de beleza e um imenso prazer de ler.
À autora, se alguma vez este comentário ler, só posso deixar um sincero OBRIGADO pelos momentos de paz e prazer que a sua leitura me propiciou. Li Marta não é um génio literário; o livro não é uma obra-prima, mas está repleto de motivos para nos deixar bem convictos de que uma leitura como esta pode ser um bocadinho de felicidade.

Sinopse
Baseado numa história verídica, vivida entre os distritos de Viseu e Aveiro. Passamos por localidades como Tondela, Caramulo, Sernancelhe, Moimenta da Beira e Águeda. Três gerações de primogénitas vivem grandes histórias de amores inesquecíveis.
Dionora vive pobremente mas feliz com António. Até ao dia em que descobrem a doença fatal vivida nos anos cinquenta, a tuberculose. Com a morte do marido, Dionora deixa de ter forças para viver.
Luzita, a primogénita de Dionora, terá de lutar pelo primeiro amor da sua vida, um homem de classe ligeiramente superior à dela. Só que o destino salpicou-lhe a vida de negro.
Lídia, a primogénita de Luzita, vive também um grande amor. Mas fica nas suas mãos dar continuidade ao último adeus. Será que é capaz?
in www.wook.pt

14 comentários:

Lí Marta disse...

Muito obrigada pelo tempo que dedicou a comentar o meu livro.
É com enorme orgulho que o deixei na minha página oficial.
As suas palavras acariciaram de tal maneira o meu livro que irão fazer ricochete para toda a vida no meu pensamento.
Com todo o meu amor,
O meu muito obrigada.
Lí Marta

Patrícia disse...

Desconhecia a escritora.
Um escritor de que gosto bastante é Rui Nunes. Muito pouco conhecido, não se entende.

Lí Marta disse...

Querida Patrícia,
Acredito que não me conheça, pois de facto eu sou tão pequenina neste mundo literário.
Julgo que agora irá ter curiosidade em me conhecer... E acredite que eu a si.
Visite a minha página oficial, para descobrir mais um pouco de mim.
https://www.facebook.com/LiMarta.escritora
Muitas felicidades.

Daniel disse...

Adoro os seus comentários :)
Nunca tinha ouvido falar nesta senhora. Vou procurar ler.

Tal como a Patrícia referiu acima, Rui Nunes é desconecido da maioria dos portugueses. É delicioso de se ler e tem qualquer coisa de Lobo Antunes. Se tiver oportunidade, leia porque não se arrependerá.

Infelizmente o escritor está praticamente cego e parou de escrever. Os livros são editados pela Relógio D'Água, o que só por si é sinónimo de qualidade.

Manuel Cardoso disse...

Obrigado, Li Marta. O certo é que gostei muito do livro. Acima de tudo gostei desse tom natural, transparente, límpido.
Um abraço.
Quanto ao Rui Nunes, já li umas coisas sobre ele. Quanto aos seus livros, lerei algo em breve

C. disse...

Olá Manuel :)
perdoem-me o radicalismo mas o Sr Rui Nunes faz parte de outro campeonato, de outro universo (literário).
compreendo a questão do destaque ou não de certos autores, mas na minha opinião há diversos aspectos que justificam- uns são autores outros são escritores- e hoje parece haver o sonho latente em 95% da população portuguesa: escrever um livro (deve estar relacionado com realização "filho+árvore+livro".
depois é qq coisa como:há os autores dos prémios, não nego que há prémios que ajudam a avançar na edição em PT (até pq as editoras devido ao seu desespero caem já não se permitem sair de certas formula) no entanto criam círculos de leitura de que a dada altura não se sai; há ainda os das festas do croquete. e os dos grupos-elite, o que está dentro da esfera é que é bom (pensamento-limite perigoso a meu ver)
para este comentário não ser so uma parvoíce pegada deixo uma sugestão e um desafio :) Leitura do Julio Cortázar- 1 livro de contos e Rayuela
Bom fim-de-semana

Lí Marta disse...

Olá a todos.
É muito bom lermos opiniões tão diferentes... pois afinal o que somos nós, se não seres tão diferentes uns dos outros? E isso é bom.

Daniel: Obrigada por gostar dos meus comentários e do interesse no meu livro. Irei seguir o seu conselho, e procurar algo desse escritor que desconheço: Rui Nunes.

Manuel Cardoso: Tem razão no comentário que fez, em eu ser um estilo Júlio Dinis. Que viu sempre o mundo pelo prisma da fraternidade, do optimismo, dos sentimentos sadios do amor e da esperança. Tal e qual. :)

C.: Concordo, em parte, com o que disse. "...hoje parece haver o sonho latente em 95% da população portuguesa: escrever um livro...". Não diria uma percentagem tão elevada. Apostava mais nos 94,99%... Estou a brincar. O que eu acho é que há muitas editoras que não primam pela qualidade da escrita. Mas sim pelo nome de quem escreve. Quando eu digo qualidade de escrita, refiro-me a tudo. Aos livros bem escritos, simples e que no final possamos dizer "valeu a pena". No final ficarmos com aquela paz interior de que gostamos do livro. E isso, infelizmente, não é o que a maior parte das editoras procuram. Mas sim escritores de nome, pois isso reflecte-se em fins lucrativos.

Meus amigos, a todos vós desejo-vos um excelente fim de semana.

Manuel Cardoso disse...

Olá amigos
Há uns anos atrás era praticamente impossível publicar um livro de ficção se não se tivesse um bom padrinho. Assim os sonhos de muitos eram eternamente adiados. Até que algumas editoras descobriram o filão: publicar mediante o pagamento (!!!) do escritor. Assim se publicaram milhares de obras, umas sem qualidade nenhuma outras razoáveis e algumas com qualidade mas que esbarrariam na falta de divulgação. O novo escritor ficava assim sem uns milhares de euros mas cumpria o seu sonho: publicar um livro mesmo que só os amigos o lessem.
A par deste comércio intensificou-se a publicação de livros (teoricamente) escritos por vips. Alguns deles nem uma frase em bom português conseguem dizer, como alguns senhores da bola, mas tornaram-se campeões de vendas (!!!).
Para o bom escritor novato que não quisesse ou não pudesse gastar dinheiro nem tivesse padrinhos restava uma via: concorrer aos prémios literários; no entanto, as opiniões que oiço e leio são muito pouco simpáticas sobre os métodos de atribuição de prémios literários.
Perante este cenário, resta-nos procurar, como agulhas num palheiro, bons escritores desses que não têm padrinhos.
Já descobri alguns: Li Marta, Cristina Torrão, Pedro de Sá, Luís Novais, Fernando Évora, Miguel Almeida, Paulo Alexandre e Castro, João Cerqueira, etc. Muitos mais há para descobrir,certamente.
Alguns dos leitores deste blogue perguntariam, no entanto, porque é que, regra geral, todos os livros de escritores novatos me agradam. A resposta é simples: não os procuro ao acaso; quando os leio tenho já opiniões avalizadas sobre eles. Foi o caso da Li Marta, aconselhada pelo meu bom amigo e grande leitor que é o Ângelo Marques.

Anónimo disse...

A C tem muita razão no que diz (e também já voltava ao blog)!!!

Existem autores e escritores. Esta autora é isso mesmo. Autora. Quem gosta dos autores referidos que ela refere não pode nunca ambicionar a mais.

Júlio Dinis??? Coitado do senhor. Isso é ridículo. Tive vergonha do que o Manuel disse. Nunca pode estar a ser verdadeiro, Júlio Dinis??????????

Clara disse...

Este livro e autora não são para mim.
Tretas já há muitas. Tenho muitos livros bons para ler e não perco tempo com os outros.

Gosto de algumas das suas opiniões, Manuel. Algumas não gosto, esta nem sei o que dizer.

Gostos não se discutem, não é? A qualidade é discutível!

Manuel Cardoso disse...

Não precisa de se envergonhar por esse motivo, anónimo :)
Clara, embora algumas pessoas não gostem, vivemos num país livre. Como diz, gostos não se discutem, por isso é melhor não continuarmos a discussão, a não ser que haja por aí argumentos lógicos.

Anónimo disse...

Júlio Dinis?
E a sra vem aqui publicitar-se dizendo que sim porque que Dinis isto e aquilo... o escritor era tão mais que isso. Tão mais.

Haja pudor.



Manuel Cardoso disse...

Anónimo, ok, já percebi a sua opinião; a minha comparação com Júlio Dinis pode ter sido exagerada mas nunca escrevi que a autora está ao nível de Júlio Dinis. Além disso, assumo o que escrevi como opinião pessoal. Eu, MANUEL CARDOSO, assumo isso como opinião pessoal. Tenho esse direito, caramba.

Lí Marta disse...

... e o que são todas estas frases, senão opiniões nossas?
E reitero o que disse anteriormente:
"Manuel Cardoso: Tem razão no comentário que fez, em eu ser um estilo Júlio Dinis. Que viu sempre o mundo pelo prisma da fraternidade, do optimismo, dos sentimentos sadios do amor e da esperança. Tal e qual. :)"
Saliento: Estilo Júlio Dinis. Não disse que era, ou escrevia, como ele. Disse que, tal como ele, vejo o mundo pela fraternidade, optimismo, amor e esperança.
Peço desculpa se estou a magoar alguém. Mas eu sou assim, cheia de defeitos, metade de mim tem defeitos, a outra metade é mau feitio. :)
E SIM Manuel Cardoso, tem o direito, assim como todos nós, de dizermos aquilo que nos vai na alma. Desde que não sejam ofensas.
Abraço a todos.