segunda-feira, 9 de março de 2015

Nicholas Nickleby - Charles Dickens


Comentário:
Só agora, à medida que vou conhecendo a obra de Dickens, começo a compreender porque é que os seus livros me fazem sentir jovem. É que livros como este despertam o sonho; são dramas da vida real em que o bem e o mal entram em confronto, mas sendo o Bem o eterno vencedor. Esta ingenuidade não é mais que o reflexo da bondade natural que caraterizava este magnífico ser humano chamado Charles Dickens. Os famosos finais felizes de Dickens não são apenas elementos de simplismo romântico; são um manifesto da sua crença no futuro da humanidade, com base na bondade natural do ser humano.
Este é talvez o seu livro mais dramático, em que as situações de injustiça e de maldade são mais cruas e violentas; mas é também o livro (dos que já li) em que a redenção é maior, em que os castigos são mais pesados e em que os bons são mais magnanimamente premiados, a fazer lembrar as mais românticas novelas dos séculos XIX e XX, com personagens profundamente maniqueístas
Este é talvez o livro de Dickens em que a sua experiência como jornalista é mais notória, com descrições objetivas, claras, quase visuais. Daí advém uma leitura simples e agradável.
Ao longo do livro, o protagonista vai reforçando o seu caráter. De início ele é uma boa alma, mas de comportamento algo amorfo. Mas a violência da sociedade leva-o à necessidade de moldar esse carater forte e na segunda metade da obra deparamos com um Nicholas com grande força de caráter, um justiceiro, um elemento de força e de crença capaz de servir de modelo aos políticos amorfos e interesseiros que Dickens também ridiculariza. Na verdade, o que distingue os personagens, mais do que o Bem ou o Mal é a Vontade; é o querer, é a força para querer mudar, para salvar uma sociedade manchada violentamente pela desigualdade e pela injustiça.
Ou seja, o âmago do livro assenta uma profunda crítica social acima de tudo, mas também critica política. Os alvos são o lorde, ou seja, o aristocrata balofo, interesseiro e ignorante, o burguês explorador e egoísta mas também os políticos, desinteressados do bem público. Convém notar que o livro foi escrito em 1838/39, 4 a 5 anos depois da publicação das leis conhecidas como Poor Laws, em que o governo britânico adotava uma estratégia de apoio aos pobres com base na segregação. Dickens, como é óbvio, esteve na charneira do debate.
A crítica ao sistema de ensino parece estender-se, de uma forma mais global, a todo um sistema social assente sobre o materialismo e uma certa ordem racionalista. A crítica assume uma forma satírica, mau grado o dramatismo da forma como são tratados os alunos do internato onde Nicholas trabalha; o mestre-escola, avaro, pérfido, é a imagem do personagem a quem apenas interessam os bens materiais e a escola pratica um sistema de castigos corporais violentos justificados pela necessidade de ordem; ora, esta ”ordem” parece ser também o motivo de uma repressão social mais global que Dickens acusa na figura dos políticos, dos comerciantes sem escrúpulos, dos funcionários do estado, enfim de toda a classe burguesa reinante na época.
Mas não se pense que o livro redunda numa pesada e austera crítica; de repente o livro deixa de ser um drama para se ir transformando num quase alegre livro de aventuras;  a transformação de Nicholas em ator e o contacto com as novas personagens dão ao livro uma leveza, uma graça que à partida não se descortinava, tal era o peso das desgraças da família Nickleby.


Sinopse: (in wikipedia)
O romance retrata os percalços de um jovem britânico, Nicholas Nickleby que, com a morte do pai, tornou-se responsável pela família composta por sua mãe e irmã. Nicholas, porém, não tinha emprego nem dinheiro e sua mãe escreve para Ralph Nickleby, irmão de seu marido recém-falecido, solicitando ajuda. Ralph é um homem desalmado, com muito dinheiro e amigos desagradáveis e perigosos. Sua ajuda tem um quê de crueldade levando Nicholas a separar-se de sua família e a conviver com situações muito dolorosas. O jovem, porém, digno e sensível, direciona seus esforços para ajudar a sua família e seus amigos que direta ou indiretamente passam a ter suas vidas atormentadas pelas ações do tio Ralph.

9 comentários:

Denise disse...

Muito curiosa!

Charles Dickens nunca me desilude.

Boas leituras Manuel :)

Til disse...

Manuel,esta tua "apreciação" ao Charles Dickens está fabulosa de tão humana que é:)

Manuel Cardoso disse...

Pois é, Til, se calhar ando a bater muito na mesma tecla mas o que mais aprecio na literatura é mesmo o humanismo...
Beijinhos...

Oi Denise :)

Til disse...

Ah eu aprecio o humanismo na literatura e nas pessoas!Adoro "pessoas humanas" porque são quentinhas...;)
Beijinhos*

Manuel Cardoso disse...

É isso, Til. Já a pessoa animal tem tendência a ser mais fresca :)

Til disse...

Manuel o conceito de pessoa fresca está,muitas vezes,associado a maldade,malandrice e coisas más...Engraçado é que eu,mais as minhas manias,associo o "pessoa fresca" a arejada no sentido de mente aberta:)
Mas,pronto,a divergência também é uma coisa muito humana,não te parece?

Manuel Cardoso disse...

Til
eu estava a brincar com as palavras e,confesso,levando para a malandrice.
Falando sério: sempre tive uma atração imensa pela literatura por achar que os escritores são as pessoas mais humanas que existem. São os que melhor compreendem a alma humana e as suas dores. Tenho um amigo escritor que diz que é assim porque o escritor tem de se colocar sempre no lugar do outro, ao escrever.
Nesse sentido, a maioria dos escritores são "quentinhos". :) São capazes de aquecer a nossa alma com a compreensão das nossas preocupações, das nossas dores, dos nossos anseios.
Pegando na tu terminologia, devo ir mais longe ainda: os bons escritores, além de serem "quentinhos" são,ao mesmo tempo, bués de "fresquinhos" porque fazem acompanhar esse humanismo de uma extraordinária mente aberta que os políticos, jornalistas e muitos intelectuais deviam admirar e imitar.
Acho que é mais ou menos isto que penso...

Til disse...

Pois,Manuel,isso da malandrice é algo típico de ser português:)
Eu também sou uma apaixonada intensa por quem domina essa arte (maior?) de escrevinhar coisas lindas e com calor...ELES compreendem-me,apesar de não me conhecerem;)
Também aprecio e conheço bem o Luís Novais (creio que é o amigo a que te referes)...ELE,TU e eu temos a mesma formação académica!!!
Este teu cantinho também é quentinho e acolhedor.Descobri-o por acaso e fiquei*
Gosto de quem gosta de ler.Mentes que lêem são mentes abertas...
Uma pergunta:porque respeitas o acordo ortográfico?
Um beijinho e boa tarde de sábado!!!






Manuel Cardoso disse...

Olá Til
o amigo em causa não éo Novais mas é um amigo comum, o Fernando Évora.
Com que então também és de História; e como amiga do Novais só podes ser boa gente, de mente aberta :)
Porque respeito o acordo ortográfico? Por deformação profissional. Sou prof e não me dava jeito nenhum respeitar o acordo na escola e desrespeitá-lo na internet. :)
beijinho