quarta-feira, 20 de julho de 2016

A Guerra do Fim do Mundo - Mario Vargas Llosa


Comentário:
Impressionante. Nunca pensei que viria a gostar tanto deste livro. São 620 páginas de pura narração; aqui não há reflexões, filosofias, nem descrições alongadas; tudo é narrativa, ação. Evidentemente que a escrita de Llosa tem a sua simbologia, as suas metáforas, as suas mensagens implícitas. Mas basta que o leitor se deixe encaminhar pelas pistas envoltas na narrativa para que compreenda essas mensagens, sem ser preciso que o autor o mace com grandes explanações teóricas.
Então que mensagens são essas, que ideias implícitas estão por detrás dessa narrativa? Antes de mais convém dizer que a estória se baseia numa história verídica, que é uma das páginas mais interessantes da história do Brasil (sim, embora o autor seja peruano, a ação decorre no Brasil). Trata-se da revolta de Canudos, ocorrida na Baía em finais do século XIX. Logo à partida, uma ideia fundamental para nos dar que pensar: de como um idealista ingénuo, ignorante, inculto consegue mover uma multidão e colocar em pé de guerra com as autoridades políticas e militares todo um povo, até aí humilde e calado? Obviamente, António Conselheiro não era um político nem um revolucionário; era a penas um lunático ou então um idealista radical; o seu sonho era criar uma comunidade justa, igualitária, onde a lei de Deus proporcionasse ao povo aquilo que ele mais ansiava e de que mais carecia: de justiça social. Está aqui, a meu ver, uma profunda lição para os tempos que correm; mais uma vez, é o passado, a História, a ajudar a compreender o presente: o radicalismo encontra raízes férteis na desigualdade. No entanto, continuamos cegos a esta lição e o mundo continua a explorar a desigualdade, para promoção de elites cada vez mais poderosas. António Conselheiro não promoveu a revolta política como não foi a religião islâmica que criou o terrorismo atual.
Obviamente, o movimento, inicialmente pacífico de António Conselheiro não era inócuo em termos políticos; e aí é que a questão se complica, quando se fazem sentir os efeitos políticos. Conselheiro e seus apaniguados viam com maus olhos o sistema republicano recentemente implantado no Brasil; eles entendiam que só a monarquia podia sustentar uma sociedade regida pelas leis da moral católica. Portanto, ele terá a oposição do poder político. Por outro lado, este movimento não podia pactuar com os grandes fazendeiros da região da Baía, onde estava implantado, pois esses terratenentes exploravam o povo, que vivia miseravelmente; portanto, eles teriam assim a oposição das elites sociais.
O conflito iria ser inevitável. A partir daí, o que mais choca neste livro é a forma como decorre esse conflito armado: milhares e milhares de soldados armados até aos dentes são enviados para Canudos a fim de esmagar a revolta. No entanto, as primeiras expedições são esmagadas pelas forças de Conselheiro – simples jagunços que outrora aterrorizavam o sertão e que agora chefiam um exército de pé descalço mas que conta com uma força tremenda que o faz vencer as armas – a força da fé; a força de um sonho. Como diz o próprio Llosa num outro Livro (Cadernos de Dom Rigoberto), “O homem, um deus quando sonha e apenas um mendigo quando pensa”.
Mas, como diz António Mega Ferreira no prefácio a esta edição dos livros RTP, o que está aqui em confronto são duas visões do mundo: uma inocente, ingénua, baseada no sonho e outra calculista, poderosa, ambiciosa e implacável no uso da força. Inevitavelmente, venceria a segunda. Mas a lição histórica ficou embora a maioria dos seres humanos continue a não a entender…

Sinopse:
Guerra de Canudos é ainda hoje um acontecimento ímpar na história do Brasil, e Mario Vargas Llosa apresenta neste romance um brutal e poderoso retrato deste momento tão singular.
Canudos, uma remota localidade do Nordeste brasileiro, foi, nos finais do século XIX, palco de um movimento de tipo messiânico que desembocou numa violenta guerra civil, na qual morreram milhares de brasileiros.
Em A Guerra do Fim do Mundo, Mario Vargas Llosa dá vida a uma soberba galeria de personagens de ambos os lados da contenda, que, passo a passo, chegará a atingir proporções delirantes.
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