terça-feira, 23 de março de 2010

Aravind Adiga - Entre os Assassinatos

Não há esperança. Não há fuga. Há miséria, exploração, pobreza moral e um imenso vazio onde caem as almas e os corpos famintos de milhões de hindus, muçulmanos e cristão, todos juntos no lodaçal do capitalismo selvagem, da exploração, da desumanidade que interessa a alguns, os que vivem desses corpos e dessas almas.
Na Índia já não é só o suor do povo que alimenta as panças inchadas dos poderosos. São os próprios pobres, são os seus corpos e as suas almas, propriedades quase feudais num novo regime senhorial, baseado no dinheiro mas também nas tradições desvirtuadas. Nesta Índia, todos são de alguém; todos procuram o sentido da vida na afirmação de uma qualquer forma de superioridade que garanta alguma paz de espírito e um pouco de pão. No entanto, esse pão e essa paz parecem só ser possíveis à custa de alguém; de outro que seja mais fraco, de um degrau mais baixo que sempre existe na escala social.
Ninguém sobrevive à podridão. Ninguém foge a uma imundície que não é só das ruas, é imundície dos corpos e dos espíritos.
Ziauddin, 12 anos, o trabalhador infantil explorado, criado muçulmano e pequeno ladrão; Abbassi, proprietário de uma confecção sobrevive à asfixia de ter de subornar toda a gente para manter um negócio onde as mulheres bordam até cegar; Xerox, o símbolo da liberdade assassinada, espancado brutalmente por não colaborar com a corrupção; Shankara, pequeno bombista da escola de rapazes, um símbolo de um sistema educativo inenarrável; Keshava tem um sonho: encaixar-se no penúltimo degrau da hierarquia – há-de haver alguém ainda pior que eu…
E o desfile prossegue: Chenaya, condutor de riquexó, é a raiva reprimida da miséria; Soumya, a jovem violentada por um pai miserável, ele próprio o excremento da sociedade; Jayamma, a cozinheira, vítima do sistema de casamentos: condenada à miséria porque o pai não tinha dinheiro para o dote de casamento…
E, num final magnífico, Murali, o comunista desiludido, o homem que procurou por toda a Índia e por toda a vida o caminho para a verdade e a justiça… um caminho inexistente… a amargura de um homem só.
Em suma, trata-se de uma obra magnífica, que ultrapassa “O Tigre Branco” em termos e profundidade de análise. Adiga põe-nos a pensar sobre o futuro, não só da Índia mas de toda uma humanidade que procura a felicidade na afirmação de relações de superioridade sobre os outros, desprezando todo um sistema tradicional de valores que poderia, mau grado as suas contradições, servir de “contrapeso” a uma ordem económica injusta e desumana.
Imagem retirada DAQUI..
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