domingo, 18 de abril de 2010

A Alma Trocada - Rosa Lobato de Faria

Ler Rosa Lobato Faria é como receber na face uma brisa fresca em pleno Verão. É um presente que damos à alma quando o cansaço ou a tristeza nos invadem. Que leveza, que aragem suave, que fluidez de palavras!
Este livro não é uma obra-prima, não é um clássico, não é um tratado de coisa nenhuma. É apenas isso: uma aragem talvez do Monte Alentejano onde decorre parte da acção. É um livro que se lê sem o mais pequeno esforço, sem necessidade de reflectir em mensagens complicadas e profundas.
A enorme experiência de Rosa Lobato Faria a escrever guiões para televisão talvez tenha contribuído para esta facilidade em contar histórias sem maçar, sem cansar.
Trata-se da história de Teo, um jovem professor de francês que se define como “o gajo mais chorão de toda a comunidade gay”. Desde logo é evidente a luta pela afirmação do direito à diferença mas o livro vai bem mais longe: os problemas de relacionamento entre Teo e Hugo ou a busca desesperada da sua identidade não são problemas específicos de um homossexual; são problemas humanos. Tão só.
Teo tem a alma trocada. Aparente e provisoriamente, só. Ao longo do enredo, Teo vai descobrindo que a sua alma é una e única. Ele não é o professor de francês que tem uma vida paralela como homossexual. Ele é um e único. Sem esta descoberta nunca seria feliz, nunca encontraria a sua identidade. Teo é, como todos os seres humanos, um homem que sofre porque ama embora não saiba o que é o amor. É um homem indeciso como qualquer outro, forçado pela vida a fazer opções e a sofrer as devidas consequências.
Como qualquer um de nós, Teo procura a liberdade como condição essencial à vida. Procura oxálida, plátano, miligrã, palavras que inventa porque elas são liberdade, são criação, são aventura. Porque não é preciso saber o significado das palavras; é preciso procurá-las. Basta procurá-las…
Um livro cheio de sensibilidade, de leveza de espírito, essa leveza sem a qual ninguém consegue libertar-se das amarras da opressão, sejam elas do nosso próprio espírito ou da sociedade que nos inserimos. Um livro que deveria ser de leitura obrigatória para determinadas mentes… um livro onde se respira liberdade, amor, ternura… (ia escrever xarel, hidranja, phisalis mas não quero exagerar).

* Quadro reproduzido na capa do livro (edição ASA)
imagem retirada daqui 

7 comentários:

Teresa disse...

Concordo totalmente contigo.
Desde que li "O Pranto de Lúcifer" percebi que nunca mais ia deixar de ler a nossa Rosinha.
Bjs

Tânia regina Contreiras disse...

Às vezes acontece algo interessante comigo (espero que não seja esse o caso, e creio que não é): a resenha, a crítica sobre algum livro é mais envolvente do que o próprio livro. Isso para dizer que gostei muito e que fiquei com grande vontade de lê-lo. Fala de gente e de alma, é comigo mesma! rsr
Gostei daqui.
abraços

Kézia Lôbo disse...

Ooo nunca li essa autora, mas parece ser bem diferente os livros dela!!!

Manuel Cardoso disse...

Teresa, já anotei esse título.

Tânia, gente e alma, é isso mesmo que procuro nos livros. Obrigado pelo tremendo elogio. Não mereço mas fico feliz com as tuas palavras.

Kézia, podes crer que é diferente mesmo! É daquelas leituras que refrescam a alma.

Abraços para vocês.

tonsdeazul disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
tonsdeazul disse...

Não li nenhuma obra ainda da autora, mas tenho lido tão boas opiniões sobre esta e outras obras, que a minha curiosidade pela sua escrita aumenta de dia para dia.
Espero que seja para breve esta descoberta!
Boas leituras! Agora ando pela "A Capital", de Eça de Queirós. :)

Anónimo disse...

Olá
descobri a Rosa Lobato de Faria através duma amiga e adorei.Li "Os pássaros de seda" e "O sétimo véu" lindos.Já comprei mais uns quantos dela, incuindo "A alma trocada" que ainda não li.O dia devia ter mais 24 horas que deviamos ser obrigados a gastar só naquilo que gostamos.
Até sempre.