quinta-feira, 15 de abril de 2010

O Miúdo Que Pregava Pregos Numa Tábua - Manuel Alegre

Ainda “não estou certo de ter sido eu”… terá sido o miúdo que pregava pregos numa tábua? Ou qualquer um dos outros? Ou todos eles excepto um? Que importa, afinal? Ninguém sabe quem foi porque ninguém sabe quem é… e o que se sabe será sempre realidade, imaginação ou poesia?
De facto, nada pode saber-se de identidades passadas ou futuros incertos. A vida é uma viajem no efémero, vive-se como quem olha as águas de um rio e tudo passa viajando ou navegando… as águas do rio como as palavras que voam, encadeando-se ao ritmo do bater do coração, porque a vida (como o Zé Mafra, cigano de Coimbra) não tem casa, só tem caminhos.
Ontem e hoje, na vida como na escrita e como na guerra de Angola, as balas ainda assobiam. Há sempre uma bala a assobiar… Aquele que escreve o livro não sabe se é o rapaz que pregava pregos numa tábua e não sabe se era o outro, ou ainda outro qualquer, mas sabe que há balas e guerras que fazem zumbido nos ouvidos e chagas na memória.
Repentinamente, a poesia bateu com força na cabeça do miúdo. Mais tarde, as sílabas dos versos haveriam de se misturar com os zumbidos das balas nos ouvidos do miúdo que crescera.
O miúdo crescia e tinha um sonho: continuar Os Lusíadas. O sonho de qualquer poeta. O sonho, talvez, de qualquer de nós, que queremos continuar a memória. E vai contando as sílabas pelos dedos e vai descobrindo que nem sempre há métrica, às vezes há liberdade, há os versos livres… sons de palavras que se misturam com silvos de balas de Angola, música de pássaros de Águeda e com o murmurar das águas do Tejo. São “os ritmos e as sílabas com que se mede o mundo”.
Tudo – o futebol, a natação, a água do rio, os pássaros, a namorada – faz parte do rapaz que pregava pregos. Mas no meio de tudo isso está sempre a escrita: as palavras que procura e tantas vezes não encontra, os versos cujas sílabas nem sempre consegue contar pelos dedos. Os mesmos dedos com que tocava música nos dentes. A mão com que Miguel Torga segurou a caneta até ao fim…
E a procura da liberdade, da vida e das sílabas é a poesia que o miúdo (militante revolucionário que dantes pregava pregos numa tábua) acaba escrevendo, ou melhor, respirando em Paris. Em breve chegará a Primavera… talvez em Abril… talvez daqui a dez anos… ou dez anos após o Verão passado…
Imagem retirada daqui 
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