segunda-feira, 26 de abril de 2010

Os Livros que Devoraram o Meu Pai - Afonso Cruz

Como se pode ver aqui, Afonso Cruz é um homem de múltiplos talentos e em boa hora meteu mão à escrita.
Este é um livrinho divertido e sério. Vivaldo Bonfim vivia lendo. Um dia caiu dentro de uma edição de “A Ilha do Dr. Moreau” e nunca mais de lá saiu.
Após este desaparecimento misterioso, os seus livros ficam encerrados no sótão de sua casa até que o seu filho, aos 12, adquira o direito a lá entrar. Nessa altura, o jovem narrador não tarda a seguir as aventuras do pai, procurando-o nesse livro mas sendo também levado a transitar entre várias outras obras, à procura de Vivaldo. Assim vai convivendo com autores e personagens, numa viagem alucinante às profundezas da literatura, deambulando entre clássicos e livros avulsos.
“Não há nada mais estúpido do que amar incondicionalmente, como fazem os cães e aqueles dois que Shakespeare imortalizou” – disse Mr Hyde. Esta e outras frases revelam uma fina ironia e sentido de humor. Personagens célebres transitam de uns livros para outros, por entre exemplos de surrealismo puro, como por exemplo aquele personagem que se faz cão porque o ser humano é o mais desumano dos animais. Na ilha que Wells inventou, os cães recusam ser humanizados. Decididamente, mais vale ser cão…
O nosso herói, filho de Bonfim (note-se o a-propósito do apelido do homem que caiu dentro de um livro) parece vaguear pelas partes brancas dos livros – entre as linhas, entre as palavras e à margem do texto, que é como quem diz, à margem do enredo – como que passeando ao lado do mundo maravilhoso dos romances e da poesia. E talvez seja mesmo nas partes brancas dos livros que se encontra a verdadeira sabedoria: “O mundo não precisa de Lao Tsés. Precisa, isso sim, de Lao Tsés calados.” (página 67).
Raskolnikov (de Crime e Castigo), o rei do remorso, é o principal suspeito do desaparecimento de Bonfim e é perseguido na Rússia (dentro do livro) por Bonfim (filho). Após o final de Crime e Castigo Raskolnikov continua a matar na esperança de que a morte banalizada se torne menos torturante. Afinal, as histórias dos livros continuam sempre. Porque são feitas por homens; homens criados por outros homens e que assim ganham vida. Dentro dos livros há outros mundos; que são reais a partir do momento que foram criados pelo escritor. Porque “Um homem é feito de História” – a ficção é vida como a vida também é ficção; é feita de memórias e todas as memórias são subjectivas. Tudo pode ser moldado, construído ou destruído; renascido ou criado… como num romance! Esta é a lição maior dos livros para a vida.
Enfim, um livro absolutamente original, cheio de criatividade e humor. Um tema que poderia ter sido mais bem explorado. Ficámos com a sensação de se ter perdido uma oportunidade de desenvolver um tema tão original e fértil.
Mesmo assim, sem dúvida, um livro que merece ser lido e relido.
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