quarta-feira, 21 de abril de 2010

No País das Últimas Coisas - Paul Auster

Numa cidade desconhecida, Anna procura desesperadamente o seu irmão William. Mas não se trata de uma cidade qualquer. Numa paisagem a fazer lembrar “A Estrada”, de Cormac McCarthy, deparamos com um cenário catastrófico, onde um qualquer desastre arruinou por completo os seus habitantes. O livro dá a entender que não se tratou de um desastre natural nem de uma guerra mas de destruição humana.
Esta visão apocalíptica põe em discussão toda a condição humana, todo o processo que pode conduzir a um esvaziamento total do eu. Não é só a cidade que se esvazia na miséria; são os homens. São as almas. Almas que trocam a felicidade, o sentimento, mesmo o prazer, por um vazio onde até a alimentação do corpo se torna dispensável. Este esvaziamento radical do ser é o que mais profundamente choca o leitor.
Numa primeira parte do romance, Auster massacra autenticamente o leitor com algumas dezenas de páginas que percorremos com total angústia perante a miséria física e moral a que um ser humano pode ser sujeito. São páginas que não chegam a despertar revolta, tão irreal é o cenário descrito; como se a nossa alma e o nosso cérebro fossem incapazes de encarar tal realidade como algo minimamente plausível. Mas à medida que o enredo avança os sentimentos emergem. Com eles, a revolta, a preocupação, o medo até.
As pessoas que perderam tudo tendem a adoptar comportamentos infantis, sonhando, imaginando, acreditando… no entanto, os objectivos são diferentes: as crianças imaginam para criar um mundo fantástico; as pessoas desesperadas usam a imaginação para esconderem a realidade de si próprias; a imaginação como fuga, como negação do real.
Na cidade do desespero a morte é um objectivo. A morte torna-se uma arte, uma forma de expressão. As pessoas criam formas de morrer. A morte torna-se espectáculo e até uma manifestação de heroísmo. Mas, para a maioria, a morte não deixa de ser banal – morre-se em qualquer lado e por qualquer motivo. Os cadáveres invadiram a cidade e tornaram-se um meio de sobrevivência: sem eles não poderia ser obtido o metano, única fonte de energia disponível.
Para a maioria, a vida limita-se a uma sobrevivência no limiar da morte – um mundo onde a esperança é totalmente ausente e onde os “risonhos” (os optimistas) são uma minoria e considerados estúpidos e absurdos.
No meio de um contexto macabro de fome, miséria e desesperança (como diria Mia Couto) a morte é uma bênção, um benefício. Curiosa a associação da morte de um personagem ao prazer sexual extremo: o prazer como prelúdio da morte. No entanto, quando se trata da morte do “eu”, por mais que seja desejada, há sempre um último passo que se torna quase impossível de dar. A vida auto-preserva-se, mesmo no limiar extremo.
Um dos pormenores mais geniais desta obra é a caracterização de um personagem que sobrevive graças ao facto de estar a escrever um livro. É o livro que o mantém vivo. A sua miséria é tão grande que só se alimenta de dois em dois dias. No entanto sobrevive porque há um livro para acabar. E só uma coisa haveria de superar o livro: o amor! Mesmo nos limites do sofrimento, Anna encontra aí o período mais feliz de toda a sua vida, mesmo incluindo os anos em que viveu na riqueza.
Bóris, o comerciante, é um homem encantador. Na verdade, ele é um mentiroso. No entanto, conta histórias fantásticas que todos fingem ser verdadeiras e quando a mentira encanta passa a chamar-se fantasia; tem o dom de nos libertar da crueldade e do sofrimento. Talvez seja por isso que todos nós temos necessidade de mentir, mesmo a nós próprios. Talvez seja também essa mentira feita fantasia que nós procuramos nos livros - a construção de mundo fictício que nos encante. É neste aspecto que Auster, neste romance, foge à regra. Este livro não nos encanta. Este livro choca-nos brutalmente com uma realidade extrema e, ao mesmo tempo, tão humana.
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