terça-feira, 13 de abril de 2010

Sensibilidade e Bom Senso - Jane Austen

Escrito em 1811, na fase mais conturbada das guerras napoleónicas, o enredo de Sensibilidade e Bom Senso desenrola-se no pacato e bucólico meio rural inglês, numa paisagem típica da literatura romântica, a fazer lembrar o nosso Júlio Dinis ou o dramatismo bucólico de Goethe.
A importância histórica desta obra é inegável: ela é precursora do romantismo literário que viria a marcar indelevelmente todo o século XIX.
A história baseia-se nos relacionamentos de Elinor e Marianne Dashwood, duas jovens órfãs de pai, que vivem com uma irmã mais nova, Margaret e a mãe, Mrs Dashwood. Trata-se de uma família da baixa burguesia rural inglesa que, quando o seu pai morre, fica com dificuldades económicas uma vez que a propriedade da família passa para John, o único filho homem. É nítido o contraste entre o carácter das irmãs, (Elinor mais racional e Mariane mais emotiva e romântica) que buscam o equilíbrio entre a razão e a sensibilidade na vida e no amor, como caminhos para a felicidade.
Pessoalmente, o aspecto que mais me marcou nesta obra foi a crítica de costumes: Austen denuncia, de forma cáustica e severa uma sociedade pequeno-burguesa obcecada com a estabilidade económica, com base nos laços matrimoniais. O casamento é visto como um simples trampolim para a estabilidade financeira e para o enriquecimento ou como meio de sobrevivência desta pequena burguesia pouco abastada. Esta denúncia é frontal e radical se atentarmos numa simples expressão como esta, a propósito de um noivo potencial para Elinor: “é um homem que vale quinhentas a seiscentas libras”. Frequentemente, os candidatos ao casamento são avaliados consoante as rendas que auferem.
Por outro lado, chega a ser chocante a forma como nos é descrita uma sociedade semi-aristocrática onde predomina o mexerico. Algumas das personagens parecem viver obcecadas com a intromissão na vida alheia, vivendo os problemas dos outros como se fossem seus, deixando emergir a inveja e o ciúme. É uma sociedade de aparências, onde se cultiva o exterior, onde, por exemplo, a profissão de sacerdote é vista como um remedeio para um homem arruinado, sem renda significativa.
Os sentimentos são sempre deixados em segundo plano, como se a alma humana tivesse de se adaptar à realidade concreta e não o inverso.
Em termos estilísticos, o livro constitui, na minha visão subjectiva de leitor comum, uma certa decepção. Fica-se com a impressão que um tema tão rico como este teria dado a azo a uma tremenda sátira de Eça de Queiroz, cheia de humor e sarcasmo. Mas Austen opta por um estilo severo, muitas vezes difícil e ainda prejudicado por uma tradução muito pouco conseguida, incluindo erros de ortografia e de construção frásica que dificultam imenso a leitura.
Em suma, um livro com uma importância notável em termos de História da Literatura mas que, a meu ver, não cumpre esse papel essencial que a leitura deve ter: o aspecto lúdico. Abundam diálogos por vezes fastidiosos, ilustrando o formalismo da época e a futilidade do meio social, deixando no leitor a sensação de que a história poderia ser contada de forma muito mais sucinta. Um livro, no entanto, valioso para os apreciadores da literatura romântica do século XIX.
Imagem retirada daqui 
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