quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O Mistério da Estrada de Sintra - Ramalho Ortigão, Eça de Queirós


Sinopse:
Naquele que é justamente considerado o primeiro romance policial português, conta-se a história de um médico que regressa de Sintra acompanhado por um amigo. A meio do caminho, ambos são raptados por um grupo de mascarados, que os levam para um prédio isolado onde aparecera um homem morto. A partir daí, os acontecimentos sucedem-se em catadupa. Quem é o morto e quem o matou? E porquê? Quem era a mulher com quem ele se encontrava, e quem são os mascarados que pretendem proteger a sua honra? A história foi publicada no Diário de Notícias entre Julho e Setembro de 1870 sob a forma de cartas anónimas, e foram muitos os que se assustaram com os acontecimentos narrados. Só no final é que Eça de Queirós e Ramalho Ortigão admitiram tratar-se de uma brincadeira e que eram eles os autores das cartas.

Comentário:
(no âmbito das leituras conjuntas do blogue Destante)


Uma paixão desmedida, uma mulher adultera, uma viagem num navio a vapor e, cereja em cima do bolo, um crime com requintes de absurdo e de mistério. Aqui estão os ingredientes para este Mistério da Estrada de Sintra, que será o primeiro livro de vulto publicado por Eça de Queirós, em parceria com Ramalho Ortigão com quem escreveria, a partir do ano seguinte (1871) essa obra genial que é As Farpas. O grande mestre da literatura portuguesa publicou este livro com apenas vinte e cinco anos. Talvez isto explique algum carater ingénuo que se “lê” nesta obra. Mesmo assim, é uma publicação histórica: trata-se da primeira narrativa policial da história da literatura portuguesa, talvez influenciado pelos contos de Edgar Allan Poe que Eça certamente leu. Por outro lado é nítida a influência da escrita realista francesa, nomeadamente de Flaubert, que Eça lia e admirava.

No entanto, parece óbvia uma certa vontade de ridicularizar a escrita romântica então em voga em Portugal, nomeadamente os grandes dramas do coração que redundam em tragédias “de faca e alguidar”. Ou seja: Eça e Ortigão conseguem criar uma obra histórica ao nível do romance policial e, ao mesmo tempo caricatura a realidade literária portuguesa daquele tempo.

Trata-se de um livro em que Eça revela já uma propensão nítida para a ironia e a sátira, caricaturando os costumes burgueses e da classe média lisboeta: o marido ausente e a mulher que, sem ocupações úteis, se expõe às tentações da carne. Assim, a protagonista, a condessa W. é uma espécie de mistura entre a Madame Bovary de Flaubert e o jovem Werther de Goethe: comete adultério mas acaba por cair na depressão do remorso, da culpa e vítima de si própria.

Em termos de estilo, estamos longe das páginas mais brilhantes de Eça de Queirós: as descrições são por vezes demasiado exaustivas e o ritmo narrativo é por vezes demasiado lento. No entanto, o livro vale pelo seu caráter pioneiro e pela crítica social que esta dupla de grandes escritores trariam à cena com as brilhantes “Farpas”.

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