segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Ulisses - James Joyce



O ESTILO

Esposa e companheira de Adão Kadmon: Heva, Eva nua. Ela não teve embigo. Contempla. Ventre sem jaça, bojando-se ancho, broquel de velino reteso, não, alvicúmulo trítico, oriente e imortal, elevando-se de pereternidade em pereternidade. Matriz do pecado
Esta simples passagem (da tradução de António Houaiss na Difel) demonstra bem a dificuldade de tradução e de leitura desta obra. Não é por acaso que escasseiam as traduções e que este livro adquiriu a reputação de leitura difícil.
O monólogo interior é um técnica egocêntrica. Joyce escreve para ele mesmo, da mesma forma que as personagens "falam” para elas mesmas. O que se escreve são, muitas vezes, simples tópicos do raciocínio do narrador ou personagem. Esta técnica não deixa de exprimir um certo realismo: porque a nossa mente é livre, todos nós pensamos para nós próprios e só cada um de nós é capaz de entender corretamente os seus próprios pensamentos. Escrever como quem pensa, por vezes com frases e palavras inacabadas, é uma estratégia que contribui para o elevado grau de dificuldade na leitura deste livro. Outras palavras são mesmo inventadas, porque a mente não se submete a gramáticas nem acordos ortográficos. E também porque nenhuma gramática nem nenhum dicionário seriam capazes de conter todo o pensamento.
Por vezes a amálgama de pensamentos provoca um certo efeito humorístico quando, por exemplo, se misturam citações de Shakespeare com temas banais como o preço das maçãs. Mas é assim mesmo a nossa mente.
Também o formato da obra é complexo: cada capítulo tem o seu estilo, desde a representação teatral até a um inacreditável parágrafo de mais de 30 páginas de monólogo, narrado pela esposa infiel e boémia.
Para o leitor, a técnica narrativa do monólogo interior é algo monótona e até maçadora. Mas é assim o pensamento humano – quão maçador seria se qualquer um de nós escrevesse todos os pensamentos que lhe ocorrem! Os pensamentos de Bloom entrecruzam-se em diferentes sensações e interrompendo raciocínios, levando o leitor a becos sem saída como as ruas mais esconsas de Dublim. Uma narrativa por vezes surreal e a arte de bem escrever levam Joyce até uma espécie de barroco formal, radicalmente subjetivo. O leitor, muitas vezes perdido nestes devaneios formais, dá-se conta que a forma se sobrepõe muitas vezes ao conteúdo, transportando o livro para um colorido fogo de artifício.
O primado do pensamento está sempre patente: o padre Conmee, por exemplo, revelando um comportamento moral exemplar vai desenrolando pensamentos profundamente imorais, escandalosos, desmascarando todo o seu mundo interior.

O ENREDO

O Senhor Bloom vagueia pela cidade de Dublin como Ulisses no regresso da guerra de Troia. Odisseu (Ulisses na aceção latina) levara dez anos na sua viagem de Troia até Ítaca. Leopold Bloom leva dezoito horas desde a sua saída até ao regresso a casa; Ulisses deixara para trás a guerra de Tróia, onde se tornara herói, recorrendo ao famoso cavalo de madeira que dera a vitória aos atenienses; Bloom deixa para trás um périplo pela cidade onde comprou rins de porco para o pequeno-almoço da esposa, uma visita aos correios para levantar a carta da amante, uma visita ao jornal onde trabalha, um funeral, além de um passagem por um bar de onde é expulso e por um bordel onde apanha uma notável bebedeira.
Molly é Penélope. Mas enquanto a heroína grega é a esposa fiel que esperou Ulisses durante 20 anos, Molly é a esposa perversa, adúltera que termina o livro recordando aventuras obscenas.
O aspeto mundano, mesmo obsceno, da obra está patente por todo o livro; por exemplo, o funeral é visto como a cerimónia da pompa da morte, algo cerimonioso mas sem qualquer misticismo. A narração da cerimónia termina com reflexões mundanas de Bloom, algumas obscenas, outras cruéis, horripilantes. “Paz às suas cinzas”, exclama Hynes, amigo de Bloom – uma visão profundamente materialista da vida e da morte.
Joyce coloca na voz de cidadãos ébrios irlandeses uma série de juízos muito críticos em relação aos estrangeiros e particularmente aos judeus. Bloom é um dos visados, simplesmente por ser judeu. Esta xenofobia é uma das razões pelas quais o autor assumiu posições muito críticas em relação à sua pátria, não só por razões políticas e religiosas mas também por este obscurantismo.
À medida que o enredo progride vai-se acentuado o tom jocoso da crítica acérrima à igreja, ao mesmo tempo que a descrição de cenas boémias se vai adensando em linguagem obscena.
No auge da orgia, a narração assume um tom surrealista, com pormenores impensáveis, como a entrada em cena de Shakespeare, em diálogo com Bloom, Dedalus (que representa Telémaco, o filho de Ulisses) e as prostitutas.

O SIGNIFICADO HISTÓRICO DA OBRA

Joyce relativiza e distorce o tempo: a história humana reduzida à história do “eu”. Todo o cosmos se transformou numa espécie de micro cosmos, numa vida interior condensada em menos de vinte e quatro horas.
Trata-se de uma obra em que o espírito irlandês está bem patente: sobre um fundo de misticismo e religiosidade quase fanática, desenham-se vidas boémias e mesmo devassas.
Joyce consegue colocar em causa todos os padrões literários, artísticos e mesmo morais da época, obtendo uma brilhante simbiose entre dois polos bem afastados entre si: a cultura grega, com toda a sua mitologia, feita de heróis e lições de moral e, por outro lado, a arte bem irlandesa de beber até cair.
O primado do pensamento atinge o seu auge no capítulo final: Molly Bloom, uma Penélope devassa, carregada de um erotismo radical, exprime-se numa linguagem chocante e obscena. É o culminar de uma obra onde o classicismo é transportado para o mundo dos sentidos; talvez seja esse o valor maior desta obra tão marcante na literatura do século XX.
Todos nós encaramos o gregos antigos como criadores de mundos carregados de ideias solenes; os criadores da filosofia e de grandes epopeias. Mas este Ulisses é a expressão de um herói carnal, profundamente humano, carregado de instintos.
Penélope / Molly supera todas as fronteiras da moralidade burguesa da época em que Joyce escreveu (entre 1914 e 1921). Estamos perante uma Penélope feminista e libertária, a anunciar novos tempos.
Em conclusão: trata-se de uma obra difícil, muito complexa, tanto pelo estilo como pelas inúmeras referências (explicitas e implícitas) ao universo homérico. A Odisseia está por todo o lado e não é um leitor comum, como eu, que consegue identificar a maioria dessas relações. Por outro lado, Joyce escreve como quem pensa; como se escrevesse apenas para ele mesmo, obrigando o leitor a um esforço “homérico” para seguir os seus raciocínios.
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