Sinopse: Uma opereta com ecos de tragédia
Um canhão assombrando uma
cidade. Um patíbulo armado de noite. Um istmo que conduz a uma cratera.
Uma diligência cercada por cães selvagens. Nuvens de grifos imundos
sobre o mar. A batalha sangrenta dos pescadores. Uma galeria de
anarquistas, mais nobres que plebeus. A casa de Madame Ricciarda. A casa
de Madame Musette. Dois jesuítas. Um padre que toca violoncelo. Um
navio que não chega mais. Uma opereta com ecos de tragédia. Sol, luz,
névoa e lua. Oito mulheres, amores duplos, triplos e quádruplos. De como
a vida engana a morte. Ou o inverso. Porque há em gente pacata uma
apetência de morte tão grande? Porque é que nunca se regressa daquela
viagem? Porque é que aquele navio não chega? Porque é que aquele canhão
jamais dispara?
Comentário:
Mais uma obra brilhante de Mário de Carvalho. Fabulosa. Imperdível.
É constituída
por dois contos (ou dois pequenos romances), aparentemente independentes, mas
com alguns pontos em comum: são duas claras sátiras ao poder político. Ambas se
passam num tempo e num espaço geográfico indeterminados. Diríamos que podiam
desenrolar-se no século XIX no leste europeu ou no século XIX em Portugal. De facto,
à medida que avançamos na leitura vamos encontrando a nossa vida ali escrita,
com palavras simples e belas como só Mário de Carvalho sabe escrever.
Tal como em todas as suas obras, também aqui o autor
exprime-se de uma forma que lhe é bem, peculiar, com uma notável economia
narrativa; se nos distraímos um pouco, imediatamente perdemos o fio à meada tal
é a ausência de descrições inúteis ou devaneios, tão queridos de determinados
escritores portugueses.
O primeiro destes contos – O Varandim – é uma belíssima sátira
à natureza do poder político, populista, elitista e por natureza socialmente
injusto. Em jeito de tragicomédia, este conto revela bem como a pena de Mário
de Carvalho está mais acintosa que nunca, mas sempre subtil e esmerada. Cada
palavra parece ser meticulosamente escolhida e cada frase cirurgicamente
construída.
“O Varandim” faz-nos sorrir pela forma está escrito mas
também porque, paulatinamente, nos vamos revendo naquelas páginas. Alguém tem
de ser condenado para que o povo saiba e se penitencie. E, acima de tudo, para
que todos tenham medo. Assim é no misterioso grão-ducado da Svidânia, assim é
por todo o lado em todos os passados e presentes. O grão-duque e o primeiro-ministro,
afinal, não são estranhos. Eles andam por aí…
Com ou sem execuções públicas, a perversão do poder está por
todo o lado… até que um dia algo de extraordinário acontece aos varandins do
poder.
No segundo conto há um jovem notário filho de um burguês
falido que migra para a cidade de Carvangel. Uma mulher jovem, filha de um
alfaiate falido, procura casamento. Várias mulheres procuram casamento. Vários
homens sonham enquanto vivem de mãos nos bolsos vazios. E uma cidade inteira
espera pelo navio Maria Speranza que os leve a todos.
Todos sonham com o misterioso navio… entretanto os
pescadores matam-se uns aos outros; as mulheres digladiam-se pelos maridos; o
assustador canhão da cidade nunca dispara; as espingardas matam grifos e abutres;
e o navio que trada…
Carvangel é esta terra de onde todos sonham fugir…
Impossível resistir a Mário de Carvalho…
1 comentário:
Nunca li nada do autor, mas já ouvi falar tão bem que tenho cada vez mais curiosidade em lê-lo.
Será com toda certeza este ano ainda. :)
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