segunda-feira, 20 de maio de 2013

A Paixão segundo G.H. - Clarice Lispector




Sinopse:
A escultora G.H. conta-nos a sua experiência vivenciada a partir do instante em que entra no quarto da ex-empregada, vê o surgimento de uma barata no guarda-roupa e esmaga-a na porta. Daí em diante, tomada por uma mistura de medo e repulsa, G.H. vive com a barata durante horas e horas a sensação de ter perdido a sua "montagem humana". A incapacidade de dar forma ao que lhe aconteceu, a aceitar este estado de perda, a leva a imaginar que alguém está segurando a sua mão. Desta maneira, o leitor passa a viver junto com a personagem esta experiência singular.
Romance original, desprovido das características próprias do gênero, A paixão segundo G.H. conta, através de um enredo banal, o pensar e o sentir de G.H., a protagonista-narradora.

Comentário:
Com tão pouco se faz um grande livro: uma mulher e uma barata!
Um intenso e profundo monólogo interior. Uma mulher de classe média alta, artista solitária, uma barata esmagada na porta de um armário, o quarto despido da empregada despedida, um intenso e pesado silêncio, uma alma inquieta e um livro, este que Clarisse Lispector compôs como uma sinfonia, cuidado em cada palavra, esmerado em cada vírgula, pensado, sentido, pesado, sofrido.
Mulher e inseto que se fundem devagar, uma mulher cujo passado se desfolha e cuja alma se despe, à medida que a matéria gelatinosa, esbranquiçada e nojenta, sai vagarosa do corpo esmagado da barata. Com Kafka à espreita, um mundo interior vai-se revelando, cheio de chagas, de matéria pútrida, de sonhos que esbarraram na solidão e nas interrogações intermináveis que a existência coloca.
A arte de Clarisse Lispector leva o leitor a, imagine-se, encarar como natural que a mulher acabe por comer a barata! A fusão perfeita; a simbiose entre o humano e o passado que a barata (animal quase fóssil) representa. A identidade plenamente atingida. A resposta a todos os dilemas de G.H.
Perante a barata esmagada assomam à memória de GH os episódios mais negros da sua vida, como o aborto que provocara. A barata torna-se assim testemunha da angústia existencial de GH mas também sua confidente; aos poucos, elas vão-se identificando uma com a outra. O inacreditável começa a surgir na mente de quem lê: GH e a barata terão um destino comum…
A essência procurada através da linguagem no monólogo e a linguagem, lentamente, transformando-se na própria essência do livro, como a massa esbranquiçada que sobressai do corpo da barata de GH comerá, numa ânsia paradoxal de encontrar o próprio âmago do seu ser.
Perturbador, melancólico, este livro faz-nos lembrar, várias vezes ao longo da leitura o existencialismo perturbado de Jean Paul Sartre ou a procura interior em confronto com a frieza do real, de Simone de Beauvoir.
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