terça-feira, 7 de maio de 2013

Objecto Quase - José Saramago


Sinopse:
Publicadas pela primeira vez em 1978, essas seis narrativas breves e tensas evidenciam as raízes do maravilhoso em Saramago.
Absurdas, líricas, irônicas, elas traduzem um capitalismo em agonia, atmosfera de fim de linha, de sociedades em que os bens de consumo circulam às expensas da própria vida. Daí a escrita que se move em ciclos, emulando ritmos alternados de crise e prosperidade, parodiando a circulação também incessante, distanciada e sem sentido das mercadorias. E, apartada do mundo, a consciência elabora sua vingança. Talvez a maior de todas seja a linguagem, que se destina a ferir e referir as coisas a distância. Daí o permanente poder de crítica desses escritos, capazes de fundir, com extrema habilidade e conhecimento de causa, o poético, o político.
(in http://www.skoob.com.br)



Comentário:
Sendo uma das primeiras obras de ficção da carreira literária do Grande Mestre, este livro de contos surpreende pela maturidade literária e pela mestria com que Saramago se expressa neste difícil género que é o conto.
Muitas vezes tenho afirmado não ser adepto de contos, pela dificuldade de encontrar obras de qualidade neste género. Infelizmente, para muitos escritores, os contos são devaneios momentâneos, obras menores fruto de inspirações isoladas e aos quais falta a devida profundidade de análise. No entanto, para os génios, um bom conto é uma obra de arte. É o caso de muito poucos livros; é o caso deste livro.
Mais do que narrativas empolgantes, estes contos são poderosos exercícios literários, onde Saramago alia uma imaginação fertilíssima a um toque de surreal mesclado com um sentido de humor discreto mas eficaz. Por outro lado, a sátira, essa arma poderosa que Saramago maneja como poucos.
O primeiro conto, por exemplo, A Cadeira, é um exercício literário notável em torno da cadeira de onde caiu Salazar. Decrépita a cadeira, decrépito o ditador. Notável o simbolismo do “bicho” da madeira, destruidor do assento do ditador, em paralelo com a força humana que derruba ditaduras; o bicho como o operário. O objeto (cadeira) como o sustentáculo do poder que ruía graças ao trabalho do “bicho”.
O segundo conto, o Embargo, é uma estória surreal de um homem que sai para o trabalho e fica misteriosamente preso ao assento do automóvel. O desespero do homem, vítima da tirania tecnológica e o desespero de um carro que devora gasolina num tempo de embargo à importação de combustível aos países árabes. Uma obra genial de sátira política.
No terceiro conto, Refluxo, um gigantesco cemitério torna-se o centro do Reino; a obra do regime. Havia que erradicar a morte da cidade e trazer todos os mortos para aquele cemitério, rodeado de muros enormes, onde os cadáveres seriam isolados da vida feliz dos vivos. Erradicar a morte. No entanto, ela viria a triunfar. E a morte voltaria a reinar sobre a cidade. E nem o rei, na sua imensa sapiência e no seu intocável poder haveria de lhe resistir.
O livro atinge os píncaros da beleza literária numa pequena obra-prima que é o conto Coisas. Coisas que desaparecem, um relógio que não avança, um sofá com febre, enfim, um chorrilho de absurdos. Até que o desaparecimento das coisas se torna uma praga incontrolável e o caos instala-se na cidade. Tudo são objetos, os homens quase objetos, autómatos perante um poder tão poderoso quanto ineficaz, tão tirânico como absurdo. Os homens, tornados objetos numa burocracia kafkiana, desesperam perante essa tirania maior, à qual nem os tiranos resistem: a tirania das coisas. No entanto, essas coisas com vontade próprias não são mais qua vontades humanas; vontades de uma réstia de humanidade que, afinal, se escondia na minoria que resiste. Porque há sempre alguém que resiste. Há sempre alguém que diz não.
Este conto é, na minha opinião, um verdadeiro épico do absurdo que há na realidade. Um hino à arte de bem escrever, com um final verdadeiramente SOBERBO.

Imagem de pintura mural de autor desconhecido, extraída do blogue http://objecto-quase.blogspot.pt/
 
Enviar um comentário