sábado, 11 de maio de 2013

Caim - José Saramago




Sinopse: 
Quem diabo é este Deus que, para enaltecer Abel, despreza Caim? 
Se em O Evangelho Segundo Cristo José Saramago nos deu a sua visão do Novo Testamento, em Caim regressa aos primeiros livros da Bíblia. Num itinerário heterodoxo, percorre cidades decadentes e estábulos, palácios de tiranos e campos de batalha pela mão dos principais protagonistas do Antigo Testamento, imprimindo ao texto o humor refinado que caracteriza a sua obra.  
Caim revela o que há de moderno e surpreendente na prosa de Saramago: a capacidade de fazer nova uma história que se conhece do princípio ao fim. Um relato irónico e mordaz no qual o leitor assiste a uma guerra secular, e de certa forma, involuntária, entre o criador e a sua criatura. 

Comentário:
Este é talvez o livro em que Saramago melhor explanou o seu sarcástico e agudo sentido de humor; um humor à beira do escárnio, ainda mais tratando-se de um tema intocável para o comum dos mortais: a mensagem bíblica. De facto, não fosse Saramago o escritor de nome feito aquém e além-fronteiras e teriam caído Carmos, Trindades, Mosteiros e Catedrais. No entanto, na fase final da sua imensa carreira, Saramago já tinha ultrapassado todas as fronteiras do medo e todos os limites do intocável.
É que, neste livro, é-nos apresentado o Deus do Antigo Testamento, mas um deus (assim mesmo, com minúscula) envolto em sangue e ódio. Na verdade, como o próprio Saramago afirmou, a Bíblia está cheia de violência. E este livro retrata-a nesse aspeto, sem dó nem piedade, da mesma forma que nem o próprio Deus teve dó ou piedade do filho condenado de Abraão, das crianças inocentes de Sodoma e Gomorra, dos pobres habitantes da martirizada Jericó, da família inteira do bom e honesto Job e mesmo a humanidade inteira afogada sob o impiedoso dilúvio.
No mínimo, podemos afirmar que estamos perante a mais refinada arte de brincar com coisas sérias. Logo no início, em contraste com o “peso” do assunto, o tom leve e descontraído da linguagem fica bem patente nestas palavras: “ Deu-se o senhor por satisfeito, despediu-se com um paternal Até logo e foi à sua vida. Então, pela primeira vez, adão disse para eva, Vamos para a cama”.
No máximo, podemos dizer que este livro testemunha uma espécie de guerra aberta declarada por Saramago a Deus – um deus maldoso, que sacrifica os seus próprios filhos. Depois de descrever vários episódios bíblicos de extrema violência, conclui Caim: “O senhor deus está louco”.
O clímax das catástrofes bíblicas termina com uma impressionante descrição das desgraças de Job, capaz de fazer refletir o mais determinado dos crentes: ele era um homem trabalhador, bom, honesto e fiel a Deus como ninguém. Então, o diabo, de comum acordo com Deus, tirou-lhe todos os haveres, cobriu-o de chagas e matou-lhe todos os filhos. Deus como aliado do diabo, como se o tivesse de contentar, oferecendo-lhe o sacrifício dos seus fiéis seres humanos. Deus mais o diabo, como se o mal e o bem se fundissem num único ser sobrenatural.
Este é também o livro de Saramago com o final mais estranho: após uma leitura trágica e cómica do dilúvio, Saramago encaminha a humanidade para um beco sem saída…
Em suma: cáustico, é o adjetivo que ficou na minha mente após a leitura: cáustico, mordaz, violento mesmo. Penso que se trata de uma das obras mais emotivas de Saramago mas também uma das menos conseguidas em termos de fôlego literário. Tem a enorme vantagem do sentido de humor, com que ameniza um pouco a extrema violência de algumas descrições. Para quem começa a leitura de Saramago com esta obra, talvez seja um livro muito interessante; no entanto, para quem já conhece as suas ideias e para quem já leu o Evangelho Segundo Jesus Cristo, a mensagem deste livro parece um pouco enfática.
Na imagem: Caim e Abel, quadro de Ticciano, séc. XVI
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