quarta-feira, 19 de junho de 2013

A Casa dos Espíritos - Isabel Allende




Sinopse:
A história do Chile da década de 20 aos anos 70 é contada através da saga da família Trueba, que começa com a união de um homem simples (Jeremy Irons), que fica rico, com uma jovem (Meryl Streep) de poderes paranormais. A saga desenvolve-se até esta família ser atingida pela revolução, que no início da década de 70 derrubou o presidente Salvador Allende. 

Comentário:
Na minha modesta opinião, estamos perante uma das melhores obras da literatura mundial. O fantástico envolvido numa ambiência humana; eis o segredo da magia de Allende. Só talvez Garcia-Marquez, em Cem Anos de Solidão, tenha conseguido superar a eficácia desta fórmula mágica.
Por todo o livro está espalhado o perfume mágico desta humanidade sofrida, deste sentimento, desta ternura pelo ser humano na sua mais pungente condição de vítima do destino ou da tirania de quem o controla. Os personagens de Isabel Allende são seres de carne e osso que a magia da escrita transforma ora em escravos das tiranias ora em magos da fantasia mais pueril, fazendo da vida um sonho, único meio de escapar aos Pinochet’s que nos ensombram a existência.
O fantástico é, na melhor linha da literatura sul-americana, povoado de um humor refinado, por vezes hilariante. A síntese entre a fantasia e o humor acaba por plasmar-se em episódios de verdadeira mestria literária, como aquele velho Pedro que afasta as formigas falando com elas, convidando-as a abandonar o local.
Um dos aspetos mais curiosos e, ao mesmo tempo, mais geniais do livro é a forma como Isabel Allende enquadra os personagens reais no trama ficcional: o Poeta, nunca nomeado, é Pablo Neruda. Mas Allende nunca o revela; como se o seu nome fosse sagrado e, se aqui exposto, se misturasse com o mundo banal dos mortais. Da mesma forma, Salvador Allende, tio da autora, nunca é referido enquanto personagem histórico, pelo mesmo motivo: os heróis verdadeiros, os que lutaram e morreram pela liberdade e felicidade dos povos, estão acima de tudo isto; acima mesmo das mais pungentes obras de arte como é este livro.
No entanto, é esta ligação da ficção à realidade que reforça a magnitude deste livro; o leitor sabe do que se está a falar. Ninguém é capaz de ler este livro sem lembrar as atrocidades do regime de Pinochet; e só assim o leitor se apercebe da dimensão do sofrimento daqueles personagens. Afinal, como diria Óscar Wilde, a realidade imitou a ficção…
Esteban Trueba é um personagem criado por Isabel Allende de uma forma absolutamente genial; mais do que o latifundiário conservador que alimentou a tirania de Pinochet, ele representa o cidadão chileno que acabou enganado pela ilusão do poder. Lá como cá. Então como em todos os tempos. Talvez porque, como diria Saramago, o poder alimenta a cegueira. E toda uma família, todo um povo, todo um país, acabaram por cair na escuridão de uma tirania que roubou não só o alimento como a alma de uma nação.
Neste contexto, o fantástico é a fuga; os cabelos verdes de Rosa e de Alba, as máquinas engenhosas do tio Marcos, as experiências mediúnicas de Clara, tudo são fugas; fugindo ao mundo real, ao mundo insano dos homens.
Se excluirmos Jaime, podemos dizer que todas as “cargas positivas” do romance estão inscritas no universo feminino. É o elogio do poder das mulheres, as que trabalham e sofrem em nome de todos. Elas são a força da resistência, o poder superior. O próprio Jaime, o único personagem masculino positivo na história, detém algo de feminino: delicado, romântico mas decidido; possuído dessa força misteriosa que permite a sobrevivência dos grandes ideais; ele será o mártir da vida.
Esteban Trueba, pelo contrário, encolhe enquanto envelhece: todo o simbolismo de um poder decrépito, tenaz mas inumano. Ele é a imagem do remorso; um homem cujos bons sentimentos são, também eles, assassinados pelo poder.
O final do livro é uma verdadeira obra de arte: a catástrofe anuncia um futuro radioso, como se a destruição total fosse a única forma de renascer… a morte do Poeta é o anúncio dos novos tempos, de uma esperança sempre renovada e escrita pela mão do povo.
 


O filme fica muito aquém do livro, o quie é natural, mas ainda assim é uma bela obra de arte, com um elenco fabuloso, incluido as minhas atrizes favoritas: Maryl Streep e Winnona Ryder:

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