terça-feira, 11 de junho de 2013

O Complexo de Portnoy - Philip Roth



                                                    O Grande Masturbador - Salvador Dali

Começo por aquilo que deveria ser, talvez, a conclusão deste texto: um livro formidável onde a sexualidade é exposta de forma despudorada, embrulhada num humor de levar às lágrimas.
Portnoy é o nome de família. Uma família judaica a viver nos EUA durante o período de terror do antissemitismo hitleriano. O jovem Portnoy, Alexander, é uma criança superdotada mas asfixiada pela rigidez de costumes da sua comunidade. O sexo, um escape interiorizado de forma obsessiva. O judaísmo, uma religião e uma cultura castradora. O humor, uma arma de Roth para troçar da vida.
Alexander Portnoy, um génio com um QI de 158, que avançou dois graus na escola primária, agora com 33 anos, conta a sua vida e confessa os seus dramas ao psicanalista. Toda a vida do jovem, todos os dramas e todas as frustrações são assim explanados no divã da psicanálise.
Daqui resulta um livro absolutamente fabuloso. Uma obra-prima!
Alexander acaba por atingir uma carreira política de sucesso: aos vinte e cinco já era consultor especial de uma subcomissão de Habitação do Congresso dos Estados Unidos. Mas a sua vida pessoal era uma tempestade contínua.
A linguagem de Roth é crua, por vezes cruel, incisiva e sem receio de ferir; talvez mesmo com intenção de ferir com lê, numa mistura genial da crueldade com o humor… uma mistura talvez sádica mas sem dúvida masoquista. Recorde-se que Roth é judeu e sempre assumiu uma postura muito crítica face à sua comunidade.
Até o próprio humor é cruel, sádico.
Por detrás de tudo isto está um sentimento de revolta para com o conservadorismo da comunidade judaica. Ou contra o próprio Deus?
“Vergonha e vergonha e vergonha e vergonha — para onde quer que me volte, dou com alguma coisa de que me deva envergonhar.”Este é o trauma maior de Alex.
O desencanto perante a falta de uma identificação com o grupo e com a sua cultura conduziram-no a uma sexualidade desenfreada e esta a uma recusa frontal do amor romântico.
Episódios cómicos carregam consigo profundas cargas simbólicas: uma sexualidade tão desenfreada que nem o fígado para o jantar escapa. Excita-se em qualquer lugar; mas na Terra Prometida não consegue…
Só na parte final do livro, alguém põe os “pontos nos i’s”: Alex viajara para Israel à procura das suas raízes mas, acima de tudo, à procura da sua própria personalidade; era fora um judeu revoltado contra o anti semitismo mas também contra o conservadorismo inútil e castrador da sua própria comunidade. Daí resultou uma personalidade confusa, perdida entre desejos desenfreados e um nunca acabar da procura da felicidade. Mas a felicidade interior, ele nunca a encontraria nas mulheres que conquistou. Esta parecia ser, finalmente, a sua musa da paz; uma jovem israelita que (mais uma vez) lhe fazia lembrar a mãe. Mas é mesmo esta jovem quem vai, finalmente, desvendar o verdadeiro Alex: Auto depreciativo, Auto reprovador, Auto escarnecedor. É assim que a israelita socialista responde ao pedido de casamento de Alex.
Ele só queria ser normal… e ela era tão parecida com a mãe!
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