segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A Náusea - Jean Paul Sartre


Sinopse:
A Náusea foi o primeiro romance de Sartre e foi saudado aquando do seu aparecimento como a revelação dum escritor de grande talento. Através do diário diurno íntimo do protagonista, Antoine Roquentin, Sartre retrata com um realismo digno de Maupassant a vida e os habitantes duma cidade da província, explorando a fundo o absurdo da condição humana, tema que mais tarde o tornaria um autor incontornável.

Comentário:
A aversão aos outros, o culto de um determinado tipo de evasão solitária, o pessimismo angustiado são algumas das ideias base deste livro, ideias essas que vieram a tornar-se fulcrais em toda a literatura existencialista francesa.
Não há dúvidas que estamos perante uma obra de charneira naquela corrente literária e um exercício literário único na vida deste filósofo que um dia afirmou que “o Inferno são os outros”.
No entanto, mau grado a dimensão filosófica da obra, ela é-nos apresentada num estilo algo poético, que cativa por uma subjetividade por vezes pungente, dramática. Roquetin é um homem solitário. Ou melhor, um homem que construiu a sua própria solidão, de forma voluntária.
No período da sua vida a que o livro se refere, Roquetin é assolado frequentemente por uma sensação de náusea que o atinge especialmente em determinadas situações de confronto com os outros. Eles surgem quase sempre como veículos de sofrimento. Todos exceto Anny. No entanto, na parte final do livro, nem Anny haverá de o ajudar a ultrapassar esse sofrimento.
O que mais choca o leitor (e terá sido essa uma das principais intenções de Sartre) é a sensação de impotência do personagem perante o mundo que o rodeia: perante os outros e perante as coisas. Tudo serve para subjugar Roquetin que se refugia numa profunda e irritante inação. Uma inação assumida, é certo, mas que a espaços se confunde com o mais atroz egoísmo.
Da inação ao desprezo pelos outros vai um pequeno passo; mas depressa Roquetin cai em contradições que talvez sejam próprias da alma humana: despreza os outros porque eles vivem em rotinas monótonas mas ele próprio, por outras vias, cai no mesmo tipo de rotinas, agravadas pela subjugação total da sua personalidade. Roquetin entende que não tem qualquer obrigação de ajudar os outros porque eles em nada servem para a sua felicidade mas fica bem patente que Anny, que não deixa de ser um “outro”, seria a única escapatória à desgraça.
Roquetin abomina especialmente os humanistas, considerando-os ingénuos. No entanto, nem ele escapa à tentação de ajudar desesperadamente o seu único amigo (o Autodidata, um humanista que ele abomina também) no momento em que ele se encontra numa situação perigosa.
Enfim, ficamos sem saber se estas são as contradições de um Roquetin condenado à inação ou se estas serão mesmo as contradições de todas as almas humanas.
Goste-se ou não, concorde-se ou discorde-se, este livro foi um duplo marco na cultura do século XX: um marco literário nas letras francesas e um marco filosófico, num livro de charneira no existencialismo europeu.

Um livro que se lê com alguma dificuldade tal é a profundidade psicológica e filosófica do enredo mas, ao mesmo tempo, uma obra fascinante pela abordagem corajosa embora pessimista, profunda embora deprimida da alma humana.
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