sábado, 15 de março de 2014

Coração, Cabeça e Estômago - Camilo Castelo Branco


Este livro é, acima de tudo, mais uma prova da enorme versatilidade deste escritor. Poucos como ele foram capazes de construir um estilo que perpassou três “escolas” oitocentistas: o romantismo, o realismo e até o naturalismo.
Nesta obra podemos encontrar um pouco de tudo: uma abordagem de notável crítica social, uma sátira de costumes e, acima de tudo, um exercício literário do mais fino e requintado humor, ao nível das suas obras mais hilariantes, como A Queda de um Anjo ou Eusébio Macário.
Esta é a história de um desgraçado; talvez mesmo apaixonado pelo fado se fado houvesse naqueles tempos. Silvestre segue os ditames do coração, depois da cabeça e depois do estômago mas só encontra a desventura; talvez seja esse o destino de quem se deixa conduzir pelas exigências do corpo.
As donzelas e senhoras por quem ele se apaixona são o reflexo de todos os males da época, que Camilo aponta com mordacidade: a ignorância da donzela destinada apenas ao casamento, a menina que lê romances de amor construindo castelos encantados que depois troca pela paixão de um caixeiro bêbado, a senhora que apenas vê o estatuto social e a renda, ou a pobre que se desgraçou porque a sociedade a julgou pela aparência.
É muito curiosa, por exemplo, a forma como Camilo, na voz do narrador (o próprio Silvestre) se refere à mudança de padrão de beleza feminina: “Estas meninas de quinze anos, que eu hoje conheço no Porto, são as filhas das robustas donzelas, que me enchiam de satisfação os olhos na minha mocidade. Que degeneração!”
Também os homens acabam por ser vítimas de uma mentalidade e de um enquadramento social que Camilo ridiculariza em cenas quase queirosianas: os duelos patetas e a cobardia de quem nem essa patetice enfrenta, o ridículo dos cavalheiros que encaram o amor como uma forma de obter distinção social e que exploram de forma abjeta a posição inferior da mulher na sociedade.
Em conclusão, estamos perante um dos livros mais divertidos de Camilo Castelo Branco: singelo, fácil, de escrita fluida e despretensiosa, própria de um escritor que trabalhava para sobreviver. Mas nem por isso deixa de ser uma obra com grande impacto na sociedade do século XIX, à qual Camilo não hesitou em apontar os defeitos: o snobismo das aparências de uma aristocracia falida, a futilidade interesseira do pensamento burguês ou a ignorância e mesmo o obscurantismo de um Portugal ainda (e sempre) algo medieval.

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