terça-feira, 14 de julho de 2015

O meu Deus é um Deus ferido - Tomás Halík

Comentário:
E agora, algo de completamente novo neste blogue. Este livro não é um romance, não é ficção, nem biografia ou ensaio científico. Ou seja, é de um género que nunca tinha tido lugar neste espaço: o pensamento religioso. 
Tratando-se de um livro de teologia, devo dizer desde já que não sou absolutamente ninguém para comentar ou avaliar este livro. Não reconheço a mim próprio qualquer competência na matéria, pelo que o meu comentário será apenas o do cidadão comum que lê e reflete sobre a fé e sobre a vida. Sim, porque por mais voltas que demos, nunca conseguiremos negar que a fé e o pensamento religioso fazem parte da vida de TODOS nós.
Para a maioria dos católicos Deus é uma entidade distante, sem corpo nem imagem. Assim sendo, é Jesus Cristo que assume essa imagem de Deus. Ele é mais do que um intermediário entre Deus e os homens; ele transmite aos homens uma ideia de Bem, de paz, de positividade.  
No entanto não há cristão que não se tenha já deparado com a dúvida. E a dúvida, muitas vezes, nasce desta reação ao sofrimento: “onde está Deus e como é possível que ele permita este mal ou este sofrimento?” A tentativa de resposta a esta questão constitui o âmago deste livro.
Ao contrário daquilo que algum senso comum pretende, este Cristo que sofre uma tortura desumana não é o filho de um Deus impotente ou então egoísta, incapaz de derrotar o mal; pelo contrário, é um Deus que sofre por causa do mal que os homens criaram.
Na tese do autor, Jesus Cristo, no seu sofrimento e na sua dor, transporta consigo o mal e a dor da humanidade. Ele sofre com os homens e como os homens quando depara com o mal causador de sofrimento. A mensagem de Cristo crucificado é precisamente essa: um deus humanizado, humilde, que compartilha a dúvida com o comum dos mortais: “Meu Deus, porque me abandonaste?”
Este livro constitui também uma enorme declaração de humildade: a morte de Deus, essa tese que tanto encantou o pensamento ocidental a partir de Nietzsche, está também ela patente no sofrimento de Cristo – quando Ele pergunta porque foi abandonado, ele penetra no inferno; ele duvida e assim experimenta a morte de Deus; neste sentido a própria fé de Cristo é morta e ressuscitada; é crítica e indagadora. A dúvida passa a fazer parte da fé – é aí, talvez, que o pensamento religioso se aproxima do pensamento científico: também ele parte da dúvida para alcançar a verdade - ter dúvidas é um importante passo para o progresso.

Estamos perante um Deus inteligente e humano, num livro inteligente e humano. Se repito estes dois adjetivos é porque eles exprimem aquilo que os críticos mais acusam a igreja de desprezar: a inteligência e o humanismo.
Neste livro sentimos muito mais dor que prazer, porque essa dor, esse sofrimento, são próprios de Cristo. E do homem. Se a dor faz parte da vida, do mundo e dos homens, então Deus está na dor. Porque:
“O Deus em que acreditamos não está por detrás da realidade, antes é a profundeza da realidade, o seu mistério, é a realidade da realidade”.  (pág. 80)
Este é o grande equívoco do ateu: ele nunca encontrará Deus por trás da realidade, escondido atrás de um arbusto manipulando a realidade, porque Deus é o Universo, o mundo, os mares e os continentes, é toda a beleza e toda a dor que nos rodeia.
A partir de certa altura também o livro se liberta do Deus/homem sofredor para nos apresentar um Cristo jovial, um “Deus que dança”, o Deus da alegria pascal. É precisamente este Deus jovial que deve presidir à nossa relação com os outros. Só evitando responder ao mal com o mal poderemos construir um mundo melhor:
“Não podemos ajudar a violência e a maldade a obter a vitória, deixando que elas nos arrastem para o seu campo, nos piquem com o veneno do ódio” (pág.117)

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