quinta-feira, 23 de julho de 2015

Um Mundo Sem Fim - Ken Follett Vol. 1


Esta é a última das obras monumentais de Follett que ainda não constava da minha lista de livros “lidos”. Trata-se de uma espécie de continuação de Os Pilares da Terra, uma vez que a ação deste primeiro volume inicia-se em 1327 e família de Caris, protagonista da obra, é descendente de Tom Builder, padrasto de Jack Builder construtor da Catedral 200 anos antes.
Neste comentário abordo apenas o conteúdo do volume 1.
Caris parece ser o protótipo da criança inteligente, que questiona. É essa a base da inteligência e da desgraça. Na idade média e não só, mas nesse tempo de uma forma mais dramática. Ser esposa ou freira era o destino normal de qualquer mulher. Quando, em criança, afirmava escolher ser doutora todos riam da infantilidade. Mas Caris viria a ser a mulher do novo mundo; do mundo de fuga ao obscurantismo.
Ao mesmo tempo, o tio, Godwyn, frade com 21 anos quer estudar em Oxford. O seu tio, Anthony responde-lhe que estudar é perigoso porque põe em causa a fé. Godwin, no entanto, não está interessado em estudar para ampliar conhecimentos mas para obter poder. E assim ele se transformará no “mau da fita” deste primeiro volume.
No que respeita à condição feminina, pouco mudou em relação a Os Pilares da Terra; já no que respeita à educação, há alguns progressos que ficaram na história com a afirmação das universidades: elas serão centros de cultura laica, ou pelo menos não tão dependente da religião, e ciências como a medicina começarão a beneficiar desse progresso. Mas eram muitos os obstáculos, um dos quais o financiamento dos estudos, que deixava as universidades e os alunos muitas vezes dependentes da igreja.
O livro dá uma ideia bastante positiva da Igreja inglesa do século XIV, tendencialmente mais moderna, mais aberta, do que a da “velha Europa”. No entanto, o conservadorismo surge como um recurso de personagens oportunistas que nele se refugiam para, com os seus argumentos retóricos fazerem prevalecer as suas opiniões e assim materializarem as suas ambições pessoais.
Um dos aspetos em que o livro mais brilha é na forma clara, correta e mesmo divertida com que nos traça o quadro mental, social e económico daquela época.

A cidade imaginária de Kingsbridge vive da produção e transformação da lã. É inegável a importância da lã inglesa na economia europeia, ainda 300 anos antes da revolução industrial. Os têxteis eram em grande parte responsáveis pela prosperidade inglesa, em contraste com uma Europa continental ainda demasiado feudal. Da mesma forma eram importantes as guildas como forma de proteger os artesãos ingleses; elas representam uma espécie de protecionismo, algo estranho mas eficaz, no contexto proto capitalista da época. No entanto, Follett mostra-nos bem como esse protecionismo pode ser prejudicial. Ontem como hoje…
Ao mesmo tempo, para trilhar os caminhos da modernidade e da liberdade, Follett leva-nos a assistir ao renascimento dos burgos (cidades) que, com os seus cidadãos livres (burgueses) contribuem decisivamente para a centralização do poder real. Assiste-se em Inglaterra a uma espécie de aliança entre povo (mais concretamente burguesia) e o rei, o que muito contribuiu para o fim dos laços de dependência pessoal.
Todo este contexto testemunha uma coisa: há mudanças profundas antes do Renascimento! Esta fase final da Idade Média é tão revolucionária como os tempos de Da Vinci.
Merthin é o prenúncio do homem renascentista. Em Inglaterra! … por oposição a  Elfric, sempre fiel à tradição. Interessante perspetiva de um pormenor que muitas vezes é desconhecido: é precisamente no final da Idade Média que as casas passam a ter compartimentos, anunciando um novo conceito de privacidade e, consequentemente, um novo conceito de moral privada. É importante reter que tal mudança não se deve atribuir ao renascimento, com a sua moral individualista e burguesa, mas sim a uma espécie de pré-renascimento medieval que Follett interpreta na perfeição.
Ralph simboliza o cavaleiro medieval, corajoso por obrigação e oportunista por natureza.
Caris é a mulher inteligente, logo, a bruxa. Mas o advento do renascimento talvez não altere significativamente essa situação.
E o esclarecimento de uma dúvida que existe na mente de muitos de nós: como começar a construir os pilares de uma ponte, tendo em conta que o rio pode ter vários metros de profundidade? Follett responde, também, a isso.

Mais uma vez, Follett traduz-se por Fabuloso.

Sinopse (in Wook.pt)
À semelhança de Os Pilares da Terra Ken Follett volta ao registo do romance histórico, numa obra dividida em duas partes graças às quase mil páginas que a compõem. A Presença publica agora o primeiro volume de Um Mundo Sem Fim, que se prevê repetir o sucesso de Os Pilares da Terra. O autor sentiu-se bastante motivado a escrever este novo livro já que desde Os Pilares da Terra, publicado em 1989, os leitores de todo o mundo clamavam insistentemente por uma sequela. Finalmente Follett inspirado e com coragem e determinação, sem esquecer uma enorme dedicação, lançou-se na escrita de Um Mundo Sem Fim, a continuação de Os Pilares da Terra, onde recorre a elementos comuns do primeiro livro e dá vida a descendentes de algumas personagens. Recuperando a mesma cidade Kingsbridge, o cenário é ambientado dois séculos mais tarde onde nos transporta até 1327. Aí iremos ao encontro de quatro crianças que presenciam a morte de dois homens por um cavaleiro. Três delas fogem com medo, ao passo que uma se mantém no local e ajuda o cavaleiro ferido a recompor-se e a esconder uma carta que contém informação secreta que não pode ser revelada enquanto ele for vivo. Estas crianças quando chegam à idade adulta viverão sempre na sombra daquelas mortes inexplicáveis que presenciaram naquele dia fatídico. Uma obra de fôlego com a marca assinalável e absolutamente incontornável de Ken Follett.

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