segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Memorial do Convento - José Saramago

É ingrato escrever sobre o Memorial do Convento. Tudo quanto se possa dizer é pouco. E tudo quanto possa “apoucar” esta obra é quase criminoso.
Sublime, épico, revolucionário, maravilhoso. Tudo isto é pouco.
Portanto, tudo o que aqui venha eu a escrever não serão mais que notas dispersas do deslumbramento com que reli este livro.
Comecemos então por umas frases do Mestre, que penso revelarem um pouco desse maravilhoso, a propósito do transporte de uma pedra monstruosa para a varanda do Convento de Mafra, tema central do livro:
“É só uma pedra, e os visitantes, antes de passarem à outra sala, É uma pedra só, por via destes e outros tolos orgulhos é que se vai disseminando o ludíbrio geral, com as suas formas nacionais e particulares, como esta de afirmar nos compêndios e histórias, Deve-se a construção do Convento de Mafra ao rei D. João V, por um voto que fez se lhe nascesse um filho, vão seiscentos homens que não fizeram filho nenhum à rainha e eles é que pagam o voto, que se lixam, com perdão da anacrónica voz”.
É isto: o refinado sentido de humor e a sensibilidade do escritor que se unem de forma genial.
E é mais que isto; é um tom poético notável: a passarola (aparelho voador historicamente documentado, construído pelo padre Bartolomeu de Gusmão), a passarola, dizia eu, que voa com a força das vontades dos homens; e é Blimunda, a mulher que representa a força popular, indomável e misteriosa, que recolhe as vontades dos corpos humanos. E quando Blimunda adoece, é a música que a cura.
Para lá da poesia na prosa, há Deus por todo o lado. Saramago, o ateu confesso, fala de Deus como quem o respira; na sua existência ou não, na sua impiedade ou injustiça; seja o Deus impiedoso que pactua com a miséria, o Deus aterrorizador que é serventias dos algozes da Inquisição ou o Deus fantasioso da superstição generalizada. Mas todos esses deuses existem porque são reais nas mentes e nas vidas sofridas dos homens.
E são essas vidas sofridas que percorrem a obra num tom pungente a lembrar as raízes neo-realistas do escritor: no sentimento de solidariedade com que descreve a vida dos mais pobres, desprezados e injustiçados pelos detentores da riqueza, renegados pelo poder. É a miséria de quem trabalha apenas para que possa manter-se na miséria. É a eterna injustiça do reino dos homens, no tempo do ouro do Brasil, que chega às toneladas para alimentar os sonhos magnânimos de um rei cujos súbditos morrem à míngua.
Neste sentido, o livro é um grito de revolta contra a natureza do poder político e, mais que isso, uma intensa reflexão sobre o sentido da vida: os que trabalham e sofrem, justificam e alimentam a vida dos poderosos e dos “santos”. Afinal, os pobres não têm tempo para viver.
Basicamente (e convém não esquecer o mais simples da mensagem) o Memorial do Convento é uma imensa homenagem a todos quantos construíram, com o sangue e o suor, não só o Convento de Mafra mas todas as vaidades que se plasmaram na pedra, onde as gentes humildes se sacrificaram na pedra bruta, altar do sofrimento, para honra e glória de mortais tornados ídolos. E talvez Deus seja apenas a testemunha silenciosa ou ausente, vá-se lá saber…
Mas nem tudo é sangue e suor neste livro; dele emana sempre o perfume do sonho, esse sol, ou esses sete sóis das semanas que comandam a vida, que o herói modesto do livro, Baltasar, herdou de alcunha: Sete Sóis, sete fôlegos, sete lutas, ou setenta vezes sete vidas guiadas pelo sol do sonho. O sonho que comanda a vida.
Enfim, um livro que se lê com fúria e prazer, com revolta e encantamento. Um livro único coroado com um final cheio de beleza e emoção.
Avaliação Pessoal: 10/10 

4 comentários:

zerafim - contos de um anjo disse...

Um sonho que não podemos deixar morrer, mesmo que se lute 70 vidas.
Sensivelmente um lord no sonho, umcamponês nos livros, um mundo nos livros, esse foi e é Saramago pra mim.

um abraço

rromi zerafim

Iceman disse...

O Mestre...

De facto Saramago foi o Mestre, por muito que custe a muitos pesudo-escritores-vedetas.

Quando vieres a Lisboa, vem visitar a Fundação Saramago, Casa dos Bicos no Campo das Cebolas.

O escritor que mais me deu.

Abraço!

Anónimo disse...

fúria e prazer são "boas" companhias, o livro deve ser bom mesmo :)

Manuel Cardoso disse...

Zerafim
"mesmo que se lute 70 vidas" :) Gostei!

Iceman
já anotei; não esquecerei.

Andressa
fúria e prazer. É isso. E nos livros de Saramago também. Ele é a verdadeira alma portuguesa: furiosa, não a propalada alma melancólica do fado.